Cartola não foi dos compositores mais prolíficos da música brasileira. No final de 1929 estreou no disco com ‘‘Que Infeliz Sorte!’’, na voz de Francisco Alves. Nessa época o cantor já era uma espécie de deus no cenário artístico. Quase três anos depois viria um segundo registro, ‘‘Perdão Meu Bem’’, com o famoso duo Francisco Alves-Mário Reis. Encurtando a história, entre 1929 e 1958, foram 13 canções levadas ao disco em 78 rotações.
Essas raridades - e mais oito músicas no advento do LP - estão no CD ‘‘O Sol Nascerᒒ, que o selo Revivendo Músicas lançou oficialmente na semana passada, em Curitiba. As gravações são originais. É um documento histórico que permite ao ouvinte o contato com músicas de Cartola praticamente inéditas.
Nem mesmo a popularidade que ele ganhou no final da vida motivou as gravadoras e intérpretes a regravar a produção do seu início de carreira. Um holofote passeia por esse terreno desconhecido, geralmente motivo de conversas entre grandes colecionadores, como Leon Barg, proprietário da gravadora. Como os demais mortais teriam acesso a essas preciosidades?
A primeira gravação completa 70 anos dentro de mais alguns meses, mas o disco ainda mais difícil de ser encontrado é o último da fase dos 78 rpm (rotações por minuto): ‘‘Festa da Penha’’, samba de Cartola e Asobert, interpretado por Ari Cordovil, foi lançado pelo selo Vila.
No livro ‘‘Cartola - Os Bons Tempos Idos’’, de Marília T. da Silva e Arthur de Oliveira Filho, consta a seguinte informação: ‘‘Gravação feita em etiqueta particular, não foi distribuído comercialmente.’’ Leon Barg discorda. Em sua opinião a gravadora não era particular; o que deve ter acontecido é que ela não conseguiu emplacar o disco no comércio. Também a Revivendo passou pelo mesmo drama em seus primeiros tempos.
Cartola - nascido Angenor de Oliveira, nome poucas vezes escrito de forma correta - foi sempre um compositor refinado, tanto na música como na letra, segundo Leon Barg. O CD é uma prova de que o autor manteve sempre a mesma elegância. As mudanças sofridas não dizem respeito à música, mas aos arranjos e aos estilos de cada época.
Segundo o pesquisador, Cartola está entre os 20 maiores compositores do País. ‘‘Queiram ou não ele é um vulto na história da música brasileira.’’ No repertório da gravadora Revivendo, ele é dos que ‘‘vendem bem’’. ‘‘Da velha guarda talvez seja o mais procurado, porque a geração atual conseguiu assimilar suas músicas’’, explica Barg.
Um dos fatores para esta preferência foi a criação de ‘‘As Rosas Não Falam’’, em 1976. A essas alturas o músico estava com 68 anos. Assim que foi levada ao disco por Beth Carvalho, percebeu-se que ali estava um clássico. A música é conhecida da juventude que, interessada, busca outras obras do autor, raciocina o empresário.
Isso não quer dizer, em hipótese alguma, que o CD ‘‘O Sol Nascerᒒ vá se transformar em sucesso. Nem imediato, nem a longo prazo. Dez anos à frente da gravadora, Leon Barg tem noção de como funciona o mercado. ‘‘Sou meio cético quanto às vendas. Primeiro, por causa do poder aquisitivo do povo. Não vou vender tanto porque muita gente não aceita aquele tipo de orquestração, aquela harmonia, aquela voz.’’
Infelizmente a maior camada de ouvintes, mesmo apreciando Cartola, desconhece a importância do documento sonoro, e não aceitam o estilo interpretativo dos cantores de 70 anos atrás. ‘‘Francisco Alves e Carmen Miranda cantam Cartola brejeiramente’’, explica Leon Barg. ‘‘Por isso não acredito que seja um lançamento para vender muito.’’

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