São Paulo, 20 (AE) - Após 12 heróicas edições patrocinadas pela Siemens (com apoio da lei municipal de cultura do Paraná), a revista de arte e poesia Medusa lança-se em direção ao desconhecido. Em busca de sedimentar sua influência e profissionalizar sua estrutura, a Medusa - editada por um grupo de poetas e intelectuais de Curitiba e São Paulo - busca aprovação na Lei Rouanet, federal, e também um patrocinador.
A própria Siemens tem demonstrado interesse em continuar apoiando a revista, mas o fato é que o empreendimento agora é um pouco maior. O editor da revista, Ricardo Corona, calcula que serão necessários pelo menos R$ 300 mil para manter a publicação em sua nova fase. Não que a nova fase vá ser mais ousada. Até agora, a Medusa já publicou textos exclusivos de Néstor Perlongher, traduções inéditas de Francis Ponge (1899-1988), poemas de Paulo Leminski, Alice Ruiz, Ademir Assunção, Rodrigo Garcia Lopes e por aí vai.
Medusa foi lançada em São Paulo em agosto, com um sarau no Finnegans Pub, em Pinheiros. A revista festejava sua chegada ao sexto número com um dossiê Leminski, que incluía a publicação de três contos inéditos em livro do autor: Céu Embaixo (1986), El Día en Que Me Quieras (1984) e Osíris (1984).
Ao lado de publicações como a Cult, a Azougue, a Monturo e a Inimigo Rumor, a revista promove uma espécie de retorno a uma tradição nacional meio esquecida, que é a de realizar um intercâmbio cultural para além das fronteiras artísticas e geográficas. Na sexta edição, por exemplo, havia contos da escritora paranaense Luci Collin ao lado de ensaio sobre o fotógrafo inglês Charles Jones (escrito por Vânia Schittenheim) e traduções de poemas de Robert Hunter (autor de letras da banda Greatfull Dead). As letras também não são o limite: trabalhos de artistas plásticos (como Newton Goto, Eliana Borges, Débora Montenegro e Andréa Las) ocupam as páginas da publicação.
Alguns momentos da breve vida da Medusa (até agora) são excepcionais. Como por exemplo o texto de Néstor Perlongher publicado com exclusividade no número sete da revista. Nele, o poeta nascido em Avellaneda, Argentina, em 1949, e morto em São Paulo em 1992, trata os grandes mitos da cultura francesa com implacável verve. Não poupa nada nem ninguém: o Louvre ("É uma vergonha, tudo o que roubaram através de milhares de anos se amontoa nesse monstrengo"), a Torre Eiffel, os modos e o perfume e a tradição ensaística (um racionalismo sisudo, segundo o autor).
Na oitava edição, além do perfil de Alice Ruiz, há uma tradução iluminada da poesia da americana Laura Riding, autora dos anos 20 e 30 que influenciou a crítica contemporânea com o método de "close reading" elaborado em parceria com Rober Graves em A Survey of Modernist Poetry (1927) - segundo assinala o tradutor, Rodrigo Garcia Lopes.
A polêmica também é cultivada com pá de veludo. O crítico Sebastião Nunes escreve texto, na edição n.º 8, em que diz que a imprensa paulista foi provavelmente "paga" pela editora para festejar as traduções de Modesto Carone para a obra de Kafka. Ele afirma que geralmente, na tradução, recria-se ("o que é uma farsa") ou se literaliza ("o que é uma fraude). Cítrico e corrosivo.
O mundo das boas revistas de arte e literatura não é fácil. A mais estável dessas revistas, recentemente, tem sido a Cult, que já completa três anos de publicação. Cult sobrevive pela insistência do jornalista Manuel da Costa Pinto e da Lemos Editorial. Pinto foi ex-auxiliar do crítico João Alexandre Barbosa na Edusp e autor de uma tese sobre Albert Camus, publicada pela Ateliê Editorial.
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