Curitiba não tem carnaval e nem mar. Quando a semana do Rei Momo chega a capital paranaense, a cidade fica entregue às moscas e a população corre em direção ao sal e ao calor. O esvaziamento de uma das maiores festas populares do Brasil motivou um grupo de jovens a fazer uma releitura da manifestação em sua cidade.
Com o tema carnaval escolhido, 14 cartunistas e roteiristas foram à luta. Os artistas passaram meses nas pranchetas e chegaram ao mesmo denominador comum: um manifesto anti-carnaval. O resultado está impresso na edição número zero da Revista Entropya, lançado no James Bar anteontem à noite. No local estão sendo expostos História em Quadrinhos dos curitibanos André Ducci, G Lerme, Antônio Eder, José Aguiar, Luciano Lagares, Clayton e RHS. As obras podem ser visitadas diariamente na Rua Vicente Machado, 894, em Curitiba, após às 20 horas.
''Nossa cidade não tem tradição de carnaval. Por coincidência acabou saindo uma revista anti-carnaval. Falamos do exagero da festa e de como ela é a caricatura do país'' explica o editor e cartunista Rafael Higino da Silveira, que usa o codinome de RHS. ''Em nosso país você é meio obrigado a gostar de carnaval. Se não gosta, é excluído. Acho o ato uma violência contra a pessoa. O sistema quer obrigá-lo a gostar de samba. Temos até data para cair na folia. Um absurdo'' justificou.
Entropya é a sucessora do Almanaque Entropya, que teve vida curta, apenas três anos. A primeira edição ocorreu em 1998, depois em 1999 e finalmente em 2000. O Almanaque era uma cooperativa, envolvendo roteristas, escritores e cartunistas, com uma linha editorial mais ampla. Com poesias, tiras, novelas e idéias. ''Hoje resolvemos primar pela qualidade e menos quantidade''.
A idéia desse número foi mudar o editorial do Almanaque. Foram cortadas as fotonovelas e poesias. RHS fala dos motivos. ''Não que a gente não goste. Faltou alguém que pudesse nos dar uma força na editoração. Como meu objetivo é quadrinho e isso toma muito tempo, resolvi deixar de lado a diagramação. Mas isso não quer dizer que estamos fechados a idéias''.
A Entropya privilegia o quadrinho de autor e com estilo, que foge dos padrões comerciais e estabelecidos. A revista procura não misturar o quadrinho infantil com ficção científica. A intenção é fazer um quadrinho alternativo e independente, sem nenhuma concessão, onde cada autor dá sua visão pessoal do mundo que o cerca.
A tendência dos próximos números é restringir os autores e usar apenas aqueles que se enquadrem na filosofia underground. Apesar de diminuir o espaço, RHS promete ser flexível na escolha dos nomes e jura estar desligado de qualquer panelinha. ''Se eu não conhecer o desenhista e ele tiver um bom trabalho, não vou deixar de publicá-lo''.
Por ser independente, o número zero ficou em gestação por quase dois anos. A previsão inicial era lançar ''Imagem do Carnaval'' em fevereiro do ano passado. O problema do editor foi fazer a gráfica rodar o material. A Faculdade Curitiba apoiou a idéia, mas deixou na geladeira o trabalho até este segundo semestre.
Como RHS desejava lançar em grande estilo a Entropya, Curitiba teve de esperar para ver o número zero. Cidades como Belo Horizonte e São Paulo conheceram a revista em outubro e novembro. O Solar do Barão foi sondado para reunir a moçada do novo ''cartoon'' curitibano. Mas a única data disponível era o dia 20 de dezembro. ''Quando não há mais ninguém na cidade'', julga RHS.
O maior desafio do grupo é com a distribuição. Como querem atingir um grande número de leitores a Entropya está acertando distribuidores para o Brasil. Já conseguiram nas cidades de Belo Horizonte, Porto Alegre e Rio de Janeiro. O cargo para o maior pólo de quadrinhos da América Latina, São Paulo, ainda está vago. ''É muito difícil. O artista é obrigado a desenhar e ainda sair para colocar sua obra nas livrarias e revistarias''.
A próxima prioridade do Entropya é colocar o site www.revistaentropya.com no ar até o final de dezembro. O número um deve estar pronto apenas em março do próximo ano. Esse vai ser o meio de atingir um maior número de pessoas.

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