Revisitar sucessos é preciso?
PUBLICAÇÃO
sábado, 04 de julho de 1998
DivulgaçãoBeto Guedes: charme dividido com outras estrelasAntônio Mariano Júnior 
Vocês se lembram da voz dele? Continua a mesma: miúda, anasalada, um timbre estranho mas que inexplicavelmente carrega um certo charme. Agora, vocês se lembram de seus grandes sucessos? Pois bem, alguns deles estão em Dia de Paz (Sony), disco que traz o cantor e compositor Beto Guedes de volta ao mundo fonográfico depois de um sumiço de sete longos anos. Sua carreira, desde então, ficou restrita a shows e, dizem, a construir um avião.
Então tá!! Dia de Paz traz apenas três músicas inéditas - Dias Assim (Beto Guedes-Chico Amaral), Se Ele Deixar (Lulu Guedes-Beto Guedes-Chico Amaral) e Tristesse (Telo-Milton Nascimento) - e Dias de Chuva (versão de Beto e Ronaldo Bastos para Rainy Days And Mondays). No mais, clássicos como Sol de Primavera, Maria Solidária, O Sal da Terra e daí vai.
Não fossem a inclusão de (poucas) músicas inéditas, Dia de Paz poderia soar como um mero disco de compilação de sucessos. Isso só não acontece porque houve uma zelosa preocupação em revestir parte conhecida do cancioneiro de Beto Guedes para refrescar a cabeça do grande público. Em compensação, fãs de carteirinha não vão deixar de questionar o porquê de o cantor e compositor mineiro não voltar com um disco em que pudesse mostrar suas novas crias.
Mas, no geral, o novo (!?) disco até agrada. Claro que para dar uma forcinha no seu retorno, Beto convocou alguns convidados ilustres para cantarem juntos como Djavan (Amor de Índio), Lô Borges (O Sol da Terra) e Paula Toller (Tristesse). Nenhum desses apresenta brilho maior.
Porém, dois convidados arrasam. O primeiro, Toni Garrido, vocalista do Cidade Negra, que emociona em Pedras Rolando. O outro, Milton Nascimento que participa da faixa mais bem produzida do disco - Asas que recebeu retoques na letra e deixou de se chamar Belo Horror. É o melhor momento do disco não só pelos falsetes maravilhosos de Milton como também pela grandiosidade do arranjo que envolveu um batalhão de músicos. O resultado é incrível. Grandioso.
Das inéditas, Dias Assim, a primeira faixa, mesmo com letra um tanto quanto melancólica, se revela sensível. Mesmo não sendo propriamente um bom intérprete, Beto Guedes se arrisca - e se dá bem - cantando a bela As Vitrines (Chico Buarque) e Espelhos Dágua (Dalto-Cláudio Rabello).
No mais, sucessos e mais sucessos e mais sucessos. Altera-se um pouco o andamento de um, coloca-se melhor uma guitarra ali, subtraem-se algumas harmonias acolá e assim se dá Dias de Paz. Um disco que soa apenas como uma promessa de que discos melhores de Beto Guedes virão.


