Em vários pontos do Brasil o nome de Nelson Rodrigues será reverenciado hoje, após 20 anos de ausência. Conduzido ao Olimpo da nossa dramaturgia, o visionário Nelson ostenta a faixa de maior dramaturgo brasileiro. Deixou um legado literário que lhe dá passaporte para incluir suas iniciais na lista dos grandes nomes da literatura universal.
Esse pode ser considerado o ano ‘‘Nelson Rodrigues’’ em função das inúmeras montagens pelo Brasil e exterior de suas peças, pinçadas entre as 17 produzidas em 68 anos de vida. Debates com especialistas, leituras dramáticas e performáticas, além de mostras de cinema revisitando filmes inspirados em sua produção teatral, foram pulverizados em 2000. A TV Globo abriu uma brecha para Nelson, destacando as inovações no palco e na literatura.
Todos os dias, no programa Vídeo Show, acontece o ‘‘Momento Nelson Rodrigues’’. A homenagem segue até o mês de fevereiro de 2001. Uma redescoberta e valorização de sua obra, ainda que tardiamente. Mas esse namoro com a produção dramatúrgica de NR ainda resvala na superfície, se compararmos o valor do universo paralelo criado por ele. São histórias crivadas de incestos, adultérios, prostituição, canalhices e morbidez.
O jornalista – tricolor doente – recebe homenagem da escola de samba Unidos da Tijuca, no Rio de Janeiro. O samba-enredo ‘‘A Tijuca Apresenta Nelson Rodrigues Pelo Buraco da Fechadura’’ vai apresentar no Sambódromo em 2001 a trágica existência de um homem e suas obsessões pela morte e sexo.
No último domingo, o jornal ‘‘The New York Times’’ apresentou reportagem elucidando ao leitor americano qual a importância de Nelson Rodrigues na dramaturgia mundial. Num espaço generoso, a matéria celebra-o como herói da cultura brasileira. O cineasta Bruno Barreto e a atriz Fernanda Montenegro comparam o universo rodriguiano ao de Eugene O’Neill. A atriz Amy Irving, casada com Barreto, pretende levar aos palcos da América ‘‘Toda Nudez Será Castigada’’ e revelou para o jornal The New York Times: ‘‘Essa peça possui uma história provocativa, uma escrita cativante e um grande personagem no qual eu pretendo mergulhar’’.
Um dos motivos que faz com que Nelson Rodrigues permaneça ainda na penumbra nos palcos com outros sotaques são as traduções nada confiáveis. Afinal, a língua portuguesa é quase secreta. Tentando reverter essa situação, o filho de Nelson, Joffre Rodrigues, terminou recentemente a tradução da 11ª peça do pai para o inglês.
Verter para outro idioma a cadência da fala, a prosódia singular, a pulsão psíquica peculiar, o diálogo extremamente elaborado, lapidado no dia-a-dia nas redações dos jornais se transforma numa tarefa para remadores de Ben-Hur. Pode-se somar a lentidão em penetrar no circuito literário o fato da posição marginal do Brasil dentro do circuito mundial do teatro.
Nelson Rodrigues Filho e Joffre Rodrigues, filhos de Nelson com Elza Bretanha, se dedicam quase que exclusivamente a divulgar a obra do ‘‘velho’’. Nelsinho está no Recife apresentando ‘‘Momentos Beijos - Nelson Rodrigues’’, uma adaptação das crônicas ‘‘A Vida Como Ela É...’’ para o teatro. Pernambuco celebra rodriguianamente o ‘maldito’, pois Nelson nasceu em Recife, em 1912.
Nesse momento, Joffre bate de porta em porta na captação de recursos para levar aos cinemas ‘‘Vestido de Noiva’’, o texto que inaugurou a nova fase da dramaturgia brasileira. O filme, orçado em R$ 9 milhões, será bilingue e terá no elenco Fernanda Montenegro (Madame Clessy) e Patrícia Pillar (Lúcia). Os rodrigues mantêm guardados em segredo absoluto o nome da atriz estrangeira convidada para dar vida à agonizante Alaíde. A direção de fotografia do filme leva a assinatura de Afonso Beato (Orfeu/Tudo Sobre Minha Mãe).
‘‘Beijo no Asfalto’’ (1960), ganha montagem do grupo Círculo de Comediantes, sob a batuta de Marco Antônio Braz. Os ensaios abertos acontecem hoje e sábado, às 21 horas, no Teatro de Arena Eugênio Kusnet. A partir de fevereiro, o Círculo de Comediantes reveza no mesmo teatro ‘‘Beijo no Asfalto’’ e ‘‘Bonitinha, mas Ordinária’’. No segundo semestre, será a vez da dobradinha ‘‘A Falecida’’ e ‘‘Dorotéia’’. No Rio de Janeiro, com a peça ‘‘A Mulher Sem Pecado’’, a primeira do dramaturgo, o diretor Luiz Arthur Nunes ouve os aplausos calorosos do teatro lotado todas as noites.
Vale registrar a montagem empreendida pelo diretor do grupo Tapa, de São Paulo, Eduardo Tolentino de Araújo, quando desembarcou em Varsóvia, em junho, dirigindo um elenco polonês em ‘‘Vestido de Noiva’’. O grupo fez, inclusive, temporada no Brasil. Ainda na paulicéia, nesse ano, destaca-se a badalada temporada que José Celso Martinez Corrêa realizou com ‘‘Boca de Ouro’’.
• Em Londrina, a atriz Carla Diacov volta ao palco hoje com a montagem do monólogo ‘‘Valsa nº 6’’. O espetáculo terá duas apresentações, no Teatro Zaqueu de Mello (Av. Rio de Janeiro, 413), às 20h30 e 21h30. Ingressos a R$ 10,00 (estudantes, terceria idade e classe artística têm desconto de 50 por cento).

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