Revirando as páginas da MPB
PUBLICAÇÃO
sábado, 27 de fevereiro de 1999
Nelson Sato 
Resumir a história da música popular brasileira em meia dúzia de parágrafos é tão fácil quanto leviano. Percorrer sua trajetória, da matriz sincrética à linguagem híbrida contemporânea, requer do pesquisador muito mais do que uma coleção de discos.
Exige estudo, obsessão investigativa e alguma audácia intuitiva para destruir mitos e derrubar clichês. Como se sabe, a musicologia popular é um campo minado, onde críticos de variadas formações - e até gerações - confrontam diariamente suas idéias, privilegiados que são pelo espaço dedicado ao assunto na imprensa cultural.
Foi nesse meio, povoado de jornalistas marketeiros a serviço de gravadoras e artistas, que o crítico Roberto M. Moura atuou durante mais de dez anos escrevendo para o tablóide alternativo Pasquim. Agora, coube a ele a tarefa de sintetizar a trajetória da MPB num volume de cem páginas. Especializado na área, afirma que já não é possível a nenhum ser vivente, em nenhum lugar do planeta, considerar-se antenado com o melhor da produção musical mundial se não souber do que andam fazendo Djavan, Ivan Lins, Milton Nascimento, Chico Buarque, Caetano Veloso, Gilberto Gil ou João Bosco.
É uma de suas observações no livro MPB - Caminhos da Arte Brasileira Mais Reconhecida no Mundo, título que chega agora ao público pela editora Vitale com prefácio do poeta Affonso Romano de SantAnna e ilustrações do cartunista Lan. O livro traz uma suscinta e despretensiosa história da música popular verde-amarela abordando suas origens, desenvolvimento e posterior prestígio como - na observação do autor - a manifestação artística brasileira de maior ressonância em todo o mundo, independente do indiscutível valor da nossa literatura, do nosso cinema, das nossas artes plásticas e outras formas de expressão.
Arquivo FolhaTom Jobim foi um dos introdutores de dissonâncias nas melodias dos sambasPublicado há pouco mais de um ano em língua espanhola, como uma encomenda da Embaixada do Brasil na Argentina para distribuição nos países do Mercosul, o livro será lançado também em russo a pedido da representação diplomática em Moscou. Na dissertação, Moura acolhe a MPB no colo exaltando-a até com uma certa ponta de orgulho ufanista.
O volume apresenta capítulos curtos destacando, segundo a ótica do crítico, os principais períodos e vertentes da música pátria. Assim, seu painel situa as primeiras manifestações sonoras de cor local por volta de 1870, a partir de reuniões de músicos amadores no Rio de Janeiro. Moura lembra que ali começava a se gestar uma forma genuína de compor e tocar, que além de revelar o resultado da mistura das raças em sua raiz, trazia influências de valsas, polcas, modinhas, xotes e demais gêneros importados da época.
Esta nova música - anota ele - acabou se ramificando em duas variantes. Uma, mais harmônica e europeizada, foi dar no choro. Outra, mais rítmica e de inspiração afro, foi dar no samba. A ambos, o choro e o samba, Moura dedica comentários especiais incluindo os dois gêneros numa panorâmica em que destaca sucessivamente a era de ouro dos cantores do rádio, as notas dissonantes da bossa nova, o período dos festivais, a explosão tropicalista e a diversidade de tendências que caracterizam a música brazuca nos dias atuais.
O painel, ainda que ligeiro, é convincente reforçando a idéia de que toda historiografia musical - particularmente aquela destinada a principiantes - deveria vir acompanhada de um CD (ou fita cassete) como um complemento enriquecedor na iniciação sonora. Essa lacuna é sentida, por exemplo, quando Moura resgata a polêmica entre os compositores Donga e Ismael Silva a respeito do que seria samba, em vista das conexões ou sutis distinções deste com o maxixe e a marcha.
Moura nota que a MPB, transformada em artigo de exportação desde a bossa nova, virou moda no outro lado do mundo. O choro e o samba, curiosamente, tiveram seu revival carimbado pela terra do sol nascente: brasileiros que vão ao Japão impressionam-se com a quantidade de lançamentos dos gêneros nas gigantescas lojas de discos de Tóquio. Artistas como Nelson Sargento e Wilson Moreira são mais fáceis de achar lá do que nas lojas próximas à Mangueira ou à Portela, onde se lançaram - afirma.
O volume inclui discografia e letras de clássicos dos vários compositores citados acompanhadas de partes das partituras - estas cedidas pela editora Vitale, detentora do acervo de artistas como Pixinguinha, Chiquinha Gonzaga, Ary Barroso, Edu Lobo e Paulinho da Viola. Paralelamente à divulgação do livro, o autor prepara um songbook dedicado à obra do compositor Aldir Blanc.
Aos interessados em adquirir MPB - Caminhos da Arte Brasileira Mais Reconhecida no Mundo, o telefone para contatos é (021) 521-6276 e 9963-2520.


