Marcos Losnak
Especial para a Folha2
Na miséria, o sujeito abandona o campo e tenta a sorte na cidade grande. Após inúmera tentativas, consegue um emprego de carregador no mercado municipal da cidade. Apesar da pequena remuneração, aluga um minúsculo quarto num cortiço. Para ganhar uns trocados a mais, começa a comprar fígados de porcos abatidos no mercado para revendê-los para os habitantes do cortiço. O lucro é pequeno mas cada centavo vale ouro. Entre os famintos, a iguaria é apreciada.
Um belo dia a polícia aparece no cortiço e prende o sujeito. A verdade vem à tona. Ele não trabalhava no mercado municipal, mas sim no necrotério da cidade. Durante as autópsias, roubava os órgãos dos defuntos e vendia-os como fígado de porco.
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A história narrada acima poder ser considerada grotesca e bizarra, mas dentro do contexto em que está inserida no livro ‘‘Trilogia Suja de Havana’’, seu maior peso está no cinismo. Trata-se da primeira obra em prosa do poeta cubano Pedro Juan Gutiérrez. Sua narrativa inundada de rebeldia foi comparada, em vários aspectos, à escritura dos norte-americanos Charles Bukowski e Henry Miller. Não é sem motivo que Gutiérrez ganhou o rótulo de ‘‘Bukowski de Cuba’’. Nascido em 1950, trabalhou como vendedor de sorvete, jornaleiro, soldado, professor de natação, cortador de cana, operário da construção civil, trabalhador agrícola, desenhista técnico, locutor de rádio e jornalista – profissão que exerce hoje em Havana. Carregado de elementos autobiográficos, seu texto está repleto de sexo, bebedeiras, vagabundagem e miséria. A desesperança é um sol que nasce todo dia e, para enfrentá-la, o narrador Pedro Juan (alter ego de Gutiérrez) utiliza um arma básica: a ironia ácida, o cinismo e um humor desbocado.
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Pedro Juan Gutiérrez constrói um autêntico pícaro cubano. Com uma linguagem coloquial, direta, repleta de palavrões e malícia, sem pudores, deixa claro que seu objetivo é remexer no lixo humano, social e individual: ‘‘Este é meu ofício: removedor de merda. Ninguém gosta disso. Não tapam o nariz quando passa o caminhão de lixo? Não escondem as latas de lixo nos fundos das casas? Não ignoram os varredores de rua, os coveiros, os limpadores de fossa? Não sentem nojo quando ouvem a palavra carniça? Por isso tampouco sorriem para mim, e olham para outro lado quando me vêem. Sou um revolvedor de merda. E não que eu esteja procurando alguma coisa na merda. Geralmente não encontro nada. Não posso dizer-lhes: ‘Oh, olhem só, encontrei um brilhante no meio da merda, ou encontrei uma boa idéia no meio da merda, ou encontrei uma coisa bonita.’ Não é assim. Não procuro nada e não encontra nada. Portanto, não posso demonstrar que sou um tipo pragmático e socialmente útil.’’
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Fiel ao seu objetivo malcheiroso, Gutiérrez escreve como quem joga pedras em vitrines: ‘‘Não me interessa o decorativo, nem o bonito, nem o doce, nem o delicioso. A arte só serve para alguma coisa se é irreverente, atormentada, cheia de pesadelos e desespero. Só uma arte irritada, indecente, violenta, grosseira, pode nos mostrar a outra face do mundo, a que nunca vemos ou nunca queremos ver, para evitar incômodos a nossa consciência.’
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Lançado pela Editora Companhia das Letras, ‘‘Trilogia Suja de Havana’’, é um retrato irreverente e cruel de Cuba dos anos 90. Sem mencionar diretamente uma única vez a política de Fidel Castro, nem o bloqueio comercial imposto pelos Estados Unidos, traça um panorama da condição da população cubana através de uma ótica interna: ‘‘Saímos todos das jaulas e começávamos a lutar na selva. Esse era o assunto. Saíamos atrofiados das jaulas. Entediados e temerosos. Não tínhamos nem idéia de como era a batalha na selva. Mas era preciso enfrentá-la. Ficamos trancados 35 anos nas jaulas do zôo. Nos davam alguma comidinha e algum remédio, mas nem idéia de como era todo o resto além das grades. E de repente é preciso saltar para a selva. Com o cérebro adormecido e os músculos frouxos e débeis. Só os melhores podiam competir pela vida na selva. Eu estava tentando.’’
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O estilo de Gutiérrez sugere que seu objetivo não é apresentar ao leitor estrangeiro um retrato da sociedade cubana. Tudo indica que seu trabalho é o de um cronista retratando sua época e seu meio. Nesse sentido para o leitor brasileiro o livro pode parecer redundante, variações mínimas sobre um mesmo tema. É justamente aí que reside a questão: o cotidiano é redundante, repetitivo, e quanto mais tempo o sofrimento se perpetua, mais adaptado a ele o ser humano se torna.
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‘‘Os edifícios se arruinaram por falta de cuidados e pouco a pouco se transformaram em cortiços com milhares de pessoas amontoadas feito baratas. Gente magra, mal alimentada, suja, sem emprego, tomando rum a toda hora, fumando maconha, tocando tambor, se reproduzindo como coelhos. Gente sem perspectiva, com um horizonte curto demais. E rindo de tudo. Do que riem? De tudo. Ninguém fica triste ou deseja o suicídio ou se apavora porque pensa que os escombros podem vir abaixo e sepultá-los em vida. Ao contrário. No meio da derrocada, as pessoas riem, sobrevivem, tentam viver o melhor possível, e aguçam seus sentidos e seu olfato, como fazem os animais mais frágeis e diminutos, que aprendem a concentrar energia e desenvolvem diversas habilidades porque sabem que nunca serão grandes, fortes e vencedores. Já que nasceram nas ruínas, trata-se, então, de nunca se abandonar, nem permitir que batam tanto nelas que enfim tenham que jogar a toalha e levantar os braços. Tudo é possível, tudo é válido, menos a derrota.’’
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Com uma narrativa em fluxo livre, sem represas, diques ou barragens, Gutiérrez mostra uma grande parte da população vivendo praticamente de subemprego, bicos, prostituição e tráfico. ‘‘A Trilogia Suja de Havana’’, composta de três relatos/novelas interligadas, é uma mostra radical da nova produção literária do país. Uma produção diferente dos tradicionais clássicos literários cubanos.
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‘‘A vida é assim bandida. Se a gente tem caráter forte, é intransigente e depreciativo. O rigor e a disciplina nos transformam em um sujeito implacável. Só os fracos são submissos e parasitários. E precisam do forte. E tudo sacrificam esperando alguma migalha. Sacrificam sua dignidade. Sei que é embaraçoso dizer isso em voz alta, mas a verdade é que uns mandam e outros obedecem. Eu não consigo obedecer a ninguém. Nem a mim mesmo. E isso me custa caro. Pago bem caro. Então, a gente está carregado de fúria e de raiva e tem de desabafar. Todos nós sabemos como: álcool, sexo, drogas. Bom, outros se fartam de chocolate ou de comida compulsiva, não sei. Aqui no bairro todos usam muito sexo e um pouco de álcool. E há também os místicos, e são os que vivem melhor. Mas isso é outra coisa. Deixemos os místicos e esotéricos de lado. Definitivamente, são muito poucos. Não contam.’’
Trilogia Suja de Havana (Trilogia Sucia de La Havana) – De Pedro Juan Gutiérrez, Editora Companhia das Letras, tradução de José Rubens Siqueira, 352 páginas, R$ 29,50.Em ‘Trilogia Suja de Havana’, o escritor cubano Pedro Juan Gutiérrez revela uma país banhado de sexo, rum e miséria
ReproduçãoTraficantes, prostitutas e desempregados infestam o universo literário de GutiérrezReproduçãoPedro Juan Gutiérrez traz um retrato desesperançado da sociedade cubana

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