REVERÊNCIA SÓBRIA
PUBLICAÇÃO
segunda-feira, 30 de abril de 2001
Nelson Sato De Londrina 
Tributos têm prazos de validade vencidos. Mal chegam às lojas e já somem na poeira dos lançamentos, relegados a produtos de segunda ou terceira categoria. Dentro do formato, não há exemplo de disco que tenha transcendido o oba-oba de ocasião e alcançado alguma perenidade na memória musical do país.
Os trabalhos do gênero, contudo, proliferam. O lançamento esta semana do CD Zé Ramalho Canta Raul Seixas (BMG), no qual o paraibano presta homenagem em onze faixas ao maluco beleza, parece emblemático. Chega ao mercado precedido por uma confusão dos diabos envolvendo o espólio do homenageado.
Poderá levantar mais controvérsias familiares sobre direitos autorais do que propriamente restituir alguma contemporaneidade à obra de Raulzito. O imbroglio interferiu inclusive na escolha das músicas para o disco, que omite as parcerias com Paulo Coelho. Mesmo assim, não faltaram sucessos como Ouro de Tolo, Trem das 7 e Metamorfose Ambulante.
Na última faixa, Zé Ramalho canta a inédita Para Raul, feita exclusivamente para o projeto. A letra é ginasial: Depois que você se foi / a música não mais tocou / Aquele sentimento claro / tão místico e simples / Que você passou pra mim / Pra nós que somos fãs.... O repertório inclui ainda As Aventuras de Raul Seixas na Cidade de Thor, S.O.S, Dentadura Postiça, How Could I Know, Como eu ia Saber?, Prelúdio, Planos de Papel e a versão Você ainda pode sonhar (Lucy in the Sky With Diamonds).
Zé Ramalho não é o primeiro e nem será o último a prestar honras a Raul Seixas, um dos poucos ícones do rock nacional. Há pouco mais de um ano, a banda O Terço já havia perpetrado um álbum-tributo ao compositor baiano. O CD do paraibano foi produzido por Robertinho do Recife, que toca guitarra em quase todas as faixas imprimindo também sua assinatura à releitura das canções.
A filha do guitarrista, Roberta, faz participação especial cantando em duas músicas. Em algumas faixas, os arranjos para cordas embutem texturas ausentes nas versões originais. A atmosfera é de sobriedade, reforçada pelo vocal grave do cantor. O excesso de reverência limou o que tinha de irônico nas composições. Para alguém que jamais tivese ouvido Raul, e não fossem as referências óbvias ao homenageado, o disco passaria por um álbum de carreira de Zé.


