Revelação em dose dupla
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domingo, 14 de dezembro de 2008
Francismar Lemes<br> Reportagem Local 
Toda a força que o balé clássico exige do corpo masculino se concentra mais na alma do que na ponta dos pés dos irmãos gêmeos londrinenses Hugo e Higor Vargas, 12 anos. Movimentos de dança que, contraditoriamente, aparentam suavidade mas que, como afirmou o escritor, dramaturgo e crítico George Bernard Shaw (1856-1950), são uma tentativa muito rude de penetrar no ritmo da vida.
Os dois são alunos da Escola Municipal de Dança (Funcart) e podem se tornar uma revelação - em dose dupla - muito maior que o irmão mais velho, Anderson Braz. A opinião é do professor e diretor da escola, Leonardo Ramos, que acompanhou também o início da carreira do bailarino londrinense.
Com apenas três anos de aula, Anderson integrou o elenco da Companhia Ballet de Londrina. Atualmente, ele faz parte do elenco de um grupo de dança em Israel, depois de passar pelas companhias Teatro Castro Alves, de Salvador (BA), e Balé Cidade de São Paulo.
''Fisicamente, os gêmeos são muito semelhantes, sendo mais talentosos que o irmão mais velho, Anderson Braz. Os dois têm uma coisa perfeita para a dança que é a disciplina, concentração e iniciativa. Também reúnem aptidões físicas essenciais para um bailarino clássico como joelho, pé e rotação femoral. São longilíneos e têm talento'', destaca Ramos.
Ansiosos pela estréia no palco do Teatro Ouro Verde, hoje às 20 horas, com o espetáculo ''A Bela Adormecida'', os gêmeos já perceberam que a dança é mais do que uma maneira de penetrar no ritmo da vida, mas uma chance real de mudá-lo.
''Gosto de dançar porque é um jeito de mostrar o que você é. Assisti o Anderson dançando. Ele mostrava o que sentia na dança'', afirma Higor.
Os dois são de poucas palavras, mas de muitos gestos - extremamente contidos para falar e de uma beleza prolixa na dança.
A trajetória de Hugo e Higor no balé já tem meio caminho percorrido por Anderson, que enfrentou o preconceito da própria família.
O pai, que na época era operário da frente de trabalho da prefeitura, prestando serviços para a Funcart, foi o grande apoiador de Anderson, mas, como lembra Ramos, a mãe, uma dona-de-casa, chegou a tirar o rapaz das aulas de dança sob o argumento de que seria melhor que ele frequentasse uma escolinha de futebol.
'' Na época, o bailarino Wagner Rosa foi até a casa do Anderson e conseguiu trazê-lo de volta'', conta Ramos, acrescentando que o rapaz também teve que lutar contra a dificuldade financeira. Hoje, Anderson ajuda financeiramente a família, sendo exemplo de vida e profissional para os gêmeos.
''A minha mãe fala para a gente dar o melhor de nós na dança. Para mim, o exemplo do Anderson é muito importante porque além do talento, ele abriu mão de ficar perto de quem gosta, fazendo um sacrifício pela dança'', afirma Higor.
Os irmãos são os únicos meninos entre as 12 meninas da turma. Para as colegas, como Luiza Faria Miani, a presença dos garotos torna as apresentações mais bonitas.
A imagem duplicada do bailarino nos gêmeos atinge a beleza de um idealismo absoluto. ''É provável que, durante um bom tempo, os dois permaneçam juntos na carreira'', acredita Ramos.


