''Felish ano nuovo!'' Mal terminou o grito, faltou chão. O braço, sabe-se como, apoiou a queda sem quebrar a sidra de maçã, ainda borbulhando gargalo afora. Na outra mão, uma cinza gigantesca desafiava a gravidade em um cigarro amassado.
A bebedeira se prolongava desde o Natal, naquela ansiedade mal explicada de aproveitar os vícios. Em 2002 seria diferente. Graças às promessas formuladas confusamente há pouco. Como entre elas estava ''não beber em excesso'', resolveu curtir o tempo que restava. A celebração escapou dos eixos, afrouxou os pinos, consumiu o juízo e o novo ano se configurava agora em uma imensa e sólida ressaca anunciando-se feito tempestade. Mesmo conhecendo o jeitão da madeira, não se desentorta um galho de um dia para outro.
Como nosso amigo, meio mundo vai acordar de ressaca no dia primeiro. Ressaca de porres variados. E as promessas realizadas a plenos pulmões horas antes serão quebradas no primeiro dia do ano. Grande contradição: para muitos, a pior ressaca do ano ocorre em 1º de janeiro. O personagem, que já mostrou potencial, funcionará como um guia pela carraspana que permeia o réveillon brasileiro.
''Como cheguei em casa?'', perguntou a si mesmo. O braço doía. O terno zero quilômetro, encharcado de vinho, jazia macetado embaixo da cama. ''Cadê fulana?'', ''Onde está minha gravata?''... Mistérios que o álcool insistiu em ocultar. Na língua, residia o gosto de champanhe barato com sopa de lentilhas. Nessa confusão conjuntural o sapato novo parecia ''batizado'' por antigos colegas de ginásio, o lenço branco cheio de sementes de romã , o ano amanhece com dor-de-cabeça.
Pelo menos até o fim da ressaca, frases como ''vou praticar esporte com frequência'', ''vou emagrecer seis quilos'' ou ''vou reler Machado de Assis, que achava um saco na adolescência'' ficaram em banho-maria. Já ''vou maneirar no álcool'' foi mais repetida que a ''Ave Maria'' no terço.
Tem o pileque premeditado: todo mundo sabe no que vai dar, menos o protagonista, que aparece agora entornando uma dose de uísque às 10 da manhã jejum do dia 31. Embalo tomado como carreta na banguela vem a segunda idéia: churrasquinho. Amigos descalços, samba rolando, cerveja aberta na faca. A farra se estende até que, assustado, vê a esposa de vestido branco, pronta para a ceia. Há uma tentativa de argumentação: '' Mash que horash shão? Vai me dizer que já vai comeshar a feshta?''
Nesse caso, 2002 chega numa ampola de glicose. O problema maior, ainda não o informaram no hospital, dormiu na casa da sogra.
Em outra situação o colega aparece sóbrio, comportando-se civilizadamente durante o réveillon. Um gole de champanhe aqui, uisquinho ali, a ceia demora. Mais uma dosinha, uma batida de maracujá e click!, vem o porre ''the flash'', repentino. A transformação é rápida e letal: os pés pisam alto, a boca responde na língua da Xuxa, os olhos descem a meio mastro.
Ele tenta reagir, mostrando sobriedade. Em vão. Logo vêm as gargalhadas indiscretas, as piadas de sacanagem contadas a todo volume, o sentimentalismo (''cara, você é meu amigo pra caramba'') e o resultado: uma choradeira deslavada contida na gravata. Nessa altura, já não aceita ir embora. E ainda exige a presença de um coitado para ouvir as lamúrias. O ano novo chega, então, amargo feito chá de boldo.
As estribeiras vão para o espaço no fim de ano, como prova nosso companheiro, agora estrelando uma antiga piada. Já para lá de Bagdá, com o conhecido caminhar em S, gravata na testa, segue ladeira abaixo bêbado dificilmente sobe até achar um botequim. ''Felish ano nuovo!'', exclama ao entrar, repetindo o estilo. ''Que ano novo? Já estamos em fevereiro'', respondem os bebuns de plantão. ''Fevereiro? É hoje que eu apanho em casa.''

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