No Ocidente o réveillon passou e o calendário voa para o carnaval, reconhecido como a festa mais popular do Brasil. Para outros povos o tempo é contado de forma diferente, por isso os chineses ainda se preparam para o Ano Novo que, em 2003, será celebrado no próximo sábado, dia 1º de fevereiro, quando os ocidentais já nem se lembrarem do champanhe, das lentilhas e da ressaca que marcam as comemorações da passagem do ano.
Seguidores do calendário lunar considerado o mais antigo do mundo, criado em 2.637 a.C. os chineses só festejam o réveillon quando acontece a primeira Lua Nova do ano. Se a data é móvel podendo ocorrer entre 20 de janeiro e 20 de fevereiro os festejos seguem uma tradição milenar por isso, na China ou em qualquer lugar habitado pelos conterrâneos de Confúcio, a noite de 31 de janeiro será de muita comida, fogos de artifício, danças especiais, casas e lojas decoradas com enfeites confeccionados com delicadeza e perfeccionismo.
Os londrinenses não precisam ir a Pequim para conhecer um pouco do réveillon chinês. Na cidade, um restaurante que há 50 anos foi batizado com um nome japonês o Matsuo tem há três anos uma proprietária chinesa, Mei Lee, de 48 anos, que não mudou o nome do estabelecimento mas faz questão de manter acesas as tradições de seu país. Desde a semana passada, ela e a filha Yato preparam a decoração e um cardápio especial para garantir boa sorte aos clientes e convidados para todos os dias do ano. A festa deverá começar na sexta-feira, às 20 horas, quando no jantar de réveillon serão servidos pratos típicos como pastéis da lua, bolinhos de pérola, brotos de bambu e outras gostosuras (leia texto nesta página) preparadas para celebrar o Ano do Carneiro, animal que rege 2003 substituindo o Cavalo que dominou 2002 e agora será sucedido por um bicho considerado dócil.
Mei Lee cujo nome significa duas vezes bonita não arrisca previsões para o Ano do Carneiro. Prefere dizer que todos os personagens do zodíaco chinês têm qualidades. Segundo a tradição, um iluminado chamado O Hoang Ta Ti (outros afirmam que foi o próprio Buda) um dia convocou os animais para uma reunião e os doze que chegaram primeiro rato, boi, tigre, coelho, dragão, serpente, cavalo, carneiro, macaco, galo, cão e porco ganharam o privilégio de reger os anos. Assim, a cada doze anos, completa-se um ciclo em que todos têm a sua vez.
Mas nas ruas da China, o animal alegórico que aparece para trazer a sorte na noite de réveillon não é nenhum dos doze animais do zodíaco. Com força imbatível e movimentos garantidos por duas pessoas que se escondem sob uma fantasia, o leão juntamente com o dragão é o rei do Ano Novo chinês e, a exemplo do boi-bumbá brasileiro, é levado às ruas nesta data para fazer a festa com a população. Segundo o costume, mestres e alunos das academias de Kung Fu fazem a Dança do Leão, bicho de natureza forte que, de acordo com o folclore, é chamado para assustar Nien, a fera que tenta acabar com a festa do Ano Novo, impedindo a passagem do tempo.
Mei Lee ainda não vai poder levar este ano a força do leão para o seu restaurante. Mas, para garantir a energia, conta com um grupo da Academia Woun Jee para uma apresentação de artes marciais. ''Fazer a Dança do Leão é um sonho que tenho para o futuro, a coreografia da noite de Ano Novo poderá ser apresentada em outros restaurantes da cidade'', diz informando que em Londrina há pelo menos 20 famílias chinesas.
Para celebrar o réveillon de maneira completa, ela vai estender as festividades também para a noite do próximo domingo, quando alguns convidados poderão jantar no Matsuo sem pagar. A gentileza ela reserva para as pessoas que fizeram sua festa de casamento no restaurante ao longo destes 50 anos de funcionamento. Segundo Mei Lee, estes casais só precisam fazer a reserva até o próximo dia 1º e levar uma foto que comprove a comemoração do casamento no local. A cortesia, como ela explica, também tem um pé na tradição. É que na China, um dia depois do réveillon, comemora-se uma data chamada ''Retorno à Casa dos Pais'', quando os filhos casados visitam a família de origem levando presentes e comida. Quem não fez sua festa de casamento no Matsuo, também poderá participar do jantar de domingo pagando R$ 25,00 por pessoa, o mesmo preço será cobrado pela ceia do réveillon. A renda dos dois jantares, segundo Mei Lee, será destinada a entidades assistenciais da cidade como forma de agradecer às bênçãos de Buda.
Além de mergulhar na fantasia de comemorar a entrada do ano à moda chinesa, quem comparecer a qualquer um dos jantares, neste fim de semana, poderá ganhar brindes como dragões e estrelas confeccionados em delicadas dobraduras ou cartões com inscrições chinesas de boa sorte. Em alguns momentos da festa os participantes vão repetir em conjunto a frase ''Kong shi fa tzai'', que significa votos de prosperidade. Quem não comeu lentilhas para garantir fartura e dinheiro no bolso no dia 31 de dezembro, ainda terá uma segunda chance. ''Kong shi fa tzai'' para todos.

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