ReproduçãoCena de ‘‘Paris Texas’’, filme de Win WendersUma profusão de Win Wenders, o diretor alemão que só descobriu o fascínio do cinema aos 20 anos, depois de enveredar pela Medicina e Filosofia, instala-se hoje no Museu Metropolitano de Arte de Curitiba. Vinte e nove fotografias estarão na mostra ‘‘Fotos’’ e no Cine Guarani - no mesmo prédio - tem início uma retrospectiva de sua filmografia.
Nas imagens captadas pelo cineasta o que se vê são extensos campos australianos, torturados por uma solidão explícita. Não existe ali o lado festivo da natureza, o horizonte que se desenha nesses panoramas parece reservar um desdobramento da mesma paisagem.
O abandono toma conta de vagões numa estrada de ferro, carros abandonados agregam-se à paisagem e até mesmo uma vista noturna da cidade de Melbourne amplia a sensação de um imenso deserto. Assustadora existência vazia.
‘‘Quando fui à Austrália pela primeira vez, não estava absolutamente preparado para este continente, para as pessoas que vivem nesta amplidão, para a luz brilhante, para este mero horizonte interminável’’, declarou. O impacto não o afastou do cenário, pelo contrário. Captados por sua lente, esses campos hoje percorrem o mundo.
Túnel do tempoNos próximos 15 dias o Cine Guarani estará exibindo os filmes de Win Wenders, numa retrospectiva que inclui ‘‘Verão na Cidade’’, seu primeiro longa-metragem, de 1970. Tinha 25 anos, estava mais interessado em música que cinema (Rolling Stones, The Animals, Van Morrison), e meia-dúzia de curtas.
Foi nessa década, porém, que surgiu o Novo Cinema Alemão, importante movimento que rompeu com a velha corrente dos dramas folhetinescos, e trouxe uma nova cultura cinematográfica. É um momento histórico para a arte do país. Projetam-se diretores que terão renome mundial, como Rainer Werner Fassbinder, Margarethe von Trotta, Peter Lilienthal, Wolker Schlondorff.
Está fazendo 20 anos que Wenders marcou seu primeiro sucesso internacional - ‘‘O Amigo Americano’’ foi a sensação da época. Graças a ele, em 1982 Francis Ford Coppola apostou todas as fichas em Wenders, na produção de ‘‘Hammett’’, uma parábola sobre o escritor Dashiel Hammett. O fracasso da empreitada foi total.
Num dos intervalos das filmagens o diretor viajou a Nova York e encontrou-se com Nicholas Ray, um dos grandes cineastas americanos malditos. Mesmo trazendo ‘‘Juventude Transviada’’ no currículo, ainda assim era um enjeitado pelos estúdios. Juntos planejaram rodar um filme a quatro mãos.
Devorado pelo câncer, Ray acabou sendo o objeto da câmara de Wenders. Num tributo ao velho cinema de Hollywood e ao western clássico, o documentário ‘‘O Filme de Nick’’, sobre os últimos dias do cineasta, transformou-se também em um dos melhores diários filmados de Wenders. Está na lista da retrospectiva do Cine Guarani.
Os filmesA partir de hoje, às 8 da noite, até o dia 1º de maio, serão exibidos nas sessões das 14h, 17h e 20h do Cine Guarani os seguintes filmes: ‘‘Paris, Texas’’, ‘‘Same Player Shoots Again’’, ‘‘Verão na Cidade’’, ‘‘Silver City’’, ‘‘O Medo do Goleiro Diante do Pênalti’’, ‘‘Alabama 2000 Anos-Luz Distante de Casa’’, ‘‘A Letra Escarlate’’, ‘‘Três LPs Americanos’’, ‘‘Alice nas Cidades’’, ‘‘Filme Policial’’, ‘‘Movimento em Falso’’, ‘‘A Família dos Crocodilos/A Ilha’’, ‘‘No Decorrer do Tempo’’, ‘‘O Amigo Americano’’, ‘‘Contracampo’’, ‘‘O Filme de Nick’’, ‘‘Quarto 666’’, ‘‘O Estado das Coisas’’, ‘‘Tokyo-Ga’’, ‘‘Caderno de Notas Sobre Roupas e Cidades’’.

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