São Paulo, 10 (AE) - Albert Camus não queria nem pensar na hipótese de ter o cineasta Robert Bresson entre os existencialistas. Justificável. O diretor, homenageado a partir de amanhã (11) com uma retrospectiva de sete de seus filmes no Cineclube Vitrine, não estava sintonizado com a doutrina de Sartre - a de que a existência precede a essência. Um ponto em comum unia, porém, Bresson a Sartre: o absurdo da existência. Três dos filmes programados para este fim de semana são dedicados à investigação de nossa condição existencial, "As Damas do Bois de Boulogne" (amanhã), "Pickpocket" (sábado) e "O Processo de Joana dArc" (domingo).
O verdadeiro mundo de Bresson é um mundo metafísico, o mundo das idéias. Ao contrário dos existencialistas, ele não despreza a idéia de Deus, mas faz dela o fundamento de uma obra marcada - paradoxo - por filmes que falam da sua ausência e da necessidade que tem o homem de estar diante do absoluto. Em "As Damas do Bois de Boulogne", uma mulher planeja sua vingança com o mesmo cuidado de um arquiteto ao projetar um edifício. Bresson retira do original de Diderot (Jacques le Fataliste) os ingredientes de crítica social e concentra-se na vingança de Helne, o mal encarnado. Jean, seu amante, deve se apaixonar por Agns e só depois conhecer seu passado "condenável", graças à revelação de Helne.
Quem mais sofre, evidentemente, é a própria Helne, devastada por uma paixão sem freios. É a vítima fatal do conflito filosófico armado por Kierkegaard. Segundo o pensador, a subjetividade culmina na paixão e o cristianismo é o paradoxo, sendo possível a conciliação dos dois, paradoxo e paixão. Helne marca um encontro consigo ao condenar o passado de Agns e adotar um modelo de perfeição que ela é incapaz de seguir. A mortificação de Helne pela ausência de Jean vai envenenar sua vida. Ela antecipa, de certa maneira, o calvário de Michel em "Pickpocket".
Michel, um batedor de carteiras, só vai encontrar a liberdade atrás das grades. O seu é um olhar cego, dirigido a um único ponto, o bolso de sua vítima. Na prisão ele poderá fugir de sua compulsão ao descobrir seu amor por Jeanne e reconhecer, pela primeira vez, a face do sagrado no outro. Assim como se entregou, de forma austera, à compulsão do roubo - impossível de dominar -, Michel vai enfrentar na prisão obstáculos e limitações para encontrar o caminho da libertação.
Dezesseis anos separam "Pickpocket" (1959) de "As Damas do Bois de Boulogne". Bresson, nesse estágio, já procurava uma tradução da imagem pelo som, de tal modo que, em seu último filme, "LArgent" (1984), programado para o dia 17, uma cena de assassinato a machadadas é substituída por uma fantasia cromática bachiana interpretada pelo marido da vítima. É um filme sobre o conceito gideano do moedeiro falso, que faz subir sorrateiramente em sua barca aqueles que não devem subir.
O garotos que passam a nota falsa de "LArgent" provocam uma tragédia familiar, mas os inquisidores que julgam a santa em "O Processo de Joana dArc" causam uma tragédia cósmica, ao não reconhecer em seu discurso as palavras do Cristo. Como o cinema de Bresson, o discurso de Joana é cristalino demais para que esses inquisidores percebam a necessidade de perder absolutamente tudo, livrar-se do peso das coisas terrenas, para atravessar a fronteira do mundo da redenção.
Mesmo que a parábola não seja o objetivo dessa obra, é certo que o cristianismo, como elemento orgânico que a define, se revela em "Au Hasard Balthazar" (segunda-feira). Nesse filme, realizado em 1966, Bresson conta a paixão recorrendo não a um homem santo, mas um asno, vítima escolhida ao acaso. O asno é uma duplicação do Cristo, de Bresson e do espectador. O sacrifício imposto ao animal será o mesmo imposto a "Mouchette" (dia 15), vítima da miséria e da falta de perspectiva, e a "Lancelot du Lac" (dia 18), dividido entre a paixão pela rainha e sua busca espiritual. Somos todos prisioneiros da santa agonia, menos Bresson, que entrou na eternidade com apenas 13 filmes em 55 anos de carreira. Serviço - "Mostra Bresson". Amanhã, As Damas do Bois de Boulogne, Fr./45. Sábado, Pickpocket, Fr./59. Domingo, O Processo de Joana dArc, Fr./62. Diariamente, às 18 horas. R$ 4 50 (sexta a domingo) e R$ 3,00 (segunda a quinta). Cineclube Vitrine. Rua Augusta, 2.530, tel. 853-7684. Até17/2

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