Retrospectiva Andrei Tarkovsky é imperdível
São Paulo, 07 (AE) - É pouco dizer que o Festival do Rio 99 traz um fino biscoito para o cinéfilo. A retrospectiva Andrei Tarkovsky é, desde já, essencial para quem considera o cinema uma forma de arte. A mostra apresenta os sete longas-metragens do diretor soviético, nascido em 1932 e morto em 1986: "A Infância de Ivan, Andrei Roublev, Solaris, URSS 1974, Stalker, Nostalgia", e "O Sacrifício". Será apresentado ainda "Dirigido por Tarkovsky",o making of de "O Sacrifício", assinado pelo co-montador do último filme do cineasta, o polonês Leszczylowski. Mostra o diretor já doente do câncer que o mataria, no exterior, tentando terminar a obra.
A trajetória de Tarkovsky é uma das mais extraordinárias da história do cinema. A obra relativamente pequena se deve tanto à morte prematura do artista quanto às dificuldades de produção que enfrentou. Depois de fazer o curta "Hoje não Haverá Saída Livre" e o média "O Trator e o Violino", Tarkovsky passou a dedicar-se ao primeiro longa, "A Infância de Ivan", que lançou em 1962. O filme funda-se no contraste entre a despreocupação da infância e o inferno da guerra.
Em seguida, viria a obra-prima, "Andrei Roublev" (1966), sobre o pintor de ícones que viveu no século 15. Uma visão poética, biografia não-linear, que coloca o artista como produto das forças criativas de um povo e de sua circunstância. De poucos filmes se pode dizer que atingem o sublime. Esse é um deles.
No entanto, em um país de estética vigiada, "Andrei Roublev" parecia navegar anos-luz distante do realismo socialista. Tarkovsky foi acusado de místico, alienado, artista de pouco contato com a realidade. A seu favor, tinha a reputação
já firmada no âmbito internacional.
O filme seguinte, a ficção científica "Solaris" (1972)
é dos seus trabalhos mais populares. Diálogo aberto com outro clássico do gênero, "2001 - Uma Odisséia no Espaço", de Stanley Kubrick, traz um planeta banhado por um oceano pensante, o mundo da harmonia possível, que reconcilia o mágico com o real. No filme seguinte, "O Espelho," o cineasta muda radicalmente de temática e volta-se para o seu passado. Num memorialismo deformado pela ação do tempo, retorna à relação com a mãe. Em "Stalker", a linha da ficção científica é retomada de maneira muito criativa. Numa região da Terra, devastada por um fenômeno cósmico, é possível para as pessoas realizar seus mais íntimos desejos.
"Nostagia" e "O Sacrifício" representam a parte final da obra. No primeiro, um poeta russo vai à Itália pesquisar sobre músico do século 19 que se suicidou no exílio. No segundo, uma festa de aniversário é interrompida pelo anúncio de uma catástrofe nuclear. A variedade temática não esconde o núcleo comum: a busca pelo sagrado, dimensão perdida pelo homem contemporâneo.





