Retratos de uma tragédia
PUBLICAÇÃO
domingo, 26 de outubro de 2008
Francismar Lemes<br> Reportagem Local 
A morte de Vladimir Herzog, em 25 de outubro de 1975. Uma inacreditável tragédia que todos os que conheceram Vlado passaram a viver intensamente e que, somente o nanico Ex-16, que auto-afirmava ser um jornal de texto, foto, quadrinho e o diabo, ousou encarar pelas lentes da Pentax da fotógrafa londrinense Elvira Alegre.
O 30º Prêmio Jornalístico Vladimir Herzog de Anistia e Direitos Humanos, criado em 1979 para que o País jamais esqueça a tragédia, como estampou o próprio Ex, único a dar detalhes sobre a morte do jornalista numa cela do DOI-Codi, será entregue amanhã no auditório do Tuca, Teatro da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo. Ocasião em que também serão premiados os vencedores do 4º Prêmio Vladimir Herzog de Novos Talentos do Jornalismo.
No ano em que a Declaração dos Direitos Humanos completa 60 anos, em 10 de dezembro, a morte de Vlado é o retrato do horror da repressão e desrespeito ao homem no Brasil, mas também deflagrou o processo de abertura no País.
Elvira Alegre é parte dessa história ao ser a única a registrar imagens do velório e sepultamento do jornalista em dois filmes de 36 poses em preto-e-branco. Fotos censuradas, algumas permaneceram inéditas até os eventos que lembraram os 30 anos do desaparecimento do Vlado, em 2005. ''É impressionante. As pessoas ainda sofrem ao verem as fotos. Acho que faço parte sim da história e do processo de abertura. A imagem é muito importante em jornalismo e essas cenas do Vlado falam por si só. Você vê a indignação. Tive a sorte de estar lá e a coragem de fazer as fotos. Nunca tive medo. Sou um verbete da história jornalística deste País'', afirma Elvira, que ainda guarda com os registros fotográficos a dor dos anos de ditadura, flagrados pela jovem de 18 anos, que deixou Londrina e o jornal Panorama, um marco do jornalismo londrinense e que reuniu na redação grandes nomes da imprensa brasileira, como Hamilton Almeida Filho, um dos editores do Ex, com quem se casou.
Como se fosse ontem em sua trajetória de quase 33 anos de jornalismo, a londrinense rebobina a tragédia, que assistiu de sua Pentax. A garota do Country Club, que morava na Rua Pará, em Londrina, estudava no Colégio Mãe de Deus e que abandonou a idéia de fazer Medicina pelo curso de Jornalismo e um emprego no Panorama às escondidas da família e, mais tarde, tudo isso por uma comunidade de jornalistas, acabou encontrando na capital paulista o episódio que a ditadura tentou manter escondido em seus porões.
Mal podia esperar o comando do II Exército, responsável pela prisão de Vlado, que de um casarão da Rua São Gall, 110, na Vila Romana, em São Paulo, onde moravam os jornalistas, entre eles, além de Hamilton e Elvira, Paulo Patarra, Mylton Severiano da Silva, José Trajano e Narciso Kalili, enfrentaria o diabo da repressão em plena madrugada, quando a edição do Ex rodou com a notícia da morte do jornalista.
Enquanto preparavam a edição, os carros de polícia passavam em frente à redação no bairro do Bexiga, barulho que não conseguiu se comparar com os 50 mil exemplares do jornal colocados na rua e que esgotaram em meia hora. ''A casa tinha um salão de festa em que Kalili se hospedava, quando ia para São Paulo. No dia da morte do Vlado, ele estava com a gente. O Myltainho atendeu ao telefone. Vlado tinha sido assassinado. Nós ficamos em polvorosa. Tínhamos o único jornal que não passava pela censura porque a gente não mandava para eles. Publicávamos e seja o que Deus quisesse. Fomos para o Hospital Albert Einstein, onde aconteceria o velório. O Hamilton me disse: 'Leva a sua máquina''', lembra Elvira.
Todos sentem a paralisia de um clima tenebroso e com Elvira não foi diferente ao chegar ao velório, o que se dissipou pela experiência de Hamilton, fazendo com que disparasse o primeiro clic. ''Ele me disse: 'Vai, não tenha medo. Fotografa'. Você não aprende a fazer jornalismo na escola. Tem que ter feeling investigativo, mas também é preciso ter alguém que o oriente. A minha visão também me ensinou a fazer jornalismo'', acrescenta a fotógrafa. O diafragma não parou até que os dois filmes em preto-e-branco contassem, o que poderia ir para o túmulo de Vlado no Cemitério Israelita do Butantã.
Fotos que a autora conseguiu transformar em documento que comprova que o jornalista não foi enterrado na periferia do cemitério reservada aos suicidas, já que a Chevrah Kadish, entidade que zela pelo cumprimento dos rituais judaicos, não encontrou indícios de que tivesse se matado enforcado. Imagens da desolação de um país nas mãos cobrindo o próprio rosto do presidente do Sindicato dos Jornalistas de São Paulo, Audálio Dantas, na madrugada de vigilia em que a imprensa estava sob os olhos de policiais à paisana. A mater dolorosa, que surgiu do olhar de Elvira na mãe de Vlado, dona Zora, que anteviu já na prisão a morte do filho. Zora aparece ao lado da mulher do jornalista e os filhos André e Ivo - um quadro de profunda dor.
Outros personagens dessa tragédia em preto-e-branco, os jornalistas Rodolfo Konder, George Duque Estrada, Paulo Markun e Anthony de Christo também contam a sua versão dos fatos nas fotos da londrinense. Presos semanas antes no DOI-Codi, eles foram liberados para assistir ao sepultamento. Mino Carta, Plínio Marcos, Zuenir Ventura, Juca de Oliveira, Walter Silva, Raul Cortez. Todos num dos seus dias mais tenebrosos nas fotos de Elvira. E o silêncio gritante de Dom Paulo Evaristo Arns de braços cruzados diante do caixão coberto pela bandeira do Sindicato dos Jornalistas.
A tragédia inacreditável que silenciou Herzog pôs um grito ainda mais forte por liberdade no País, já que não foi uma morte silenciosa. Tempos depois, Elvira voltou a morar em Londrina. ''As pessoas dizem que não se arrependem de nada. É difícil responder essa pergunta. Acho que a gente se arrepende sim de algumas coisas. Eu poderia ter feito mais. Não sei se voltei na hora certa, mas acho que faço a diferença para melhorar a cidade. Se tivesse ficado em São Paulo teria toda uma carreira, mas naquele momento era importante voltar'', avalia Elvira.


