Retratos da vida
Retratos da vida
O surrealismo enquanto escola artística só se constitui oficialmente a partir do Manifesto Surrealista (1924), redigido e lançado com alarde em Paris, por André Breton, e subscrito por um sem-número de intelectuais, sobretudo franceses.
Apesar do anárquico niilismo dos dadaístas, do qual se origina, ou por isto mesmo, o movimento surge no espaço de uma crescente insatisfação com o status quo e com a própria Razão iluminista - ordeira, burguesa, incapaz de audácias e desassombros. Acresce-se a também progressiva influência de Freud e discípulos sobre os rumos do pensamento europeu, com este divisor de águas que é a descoberta do Inconsciente; e a lenta, porém segura, sistematização da Psicanálise - a primeira ciência a investigar na práxis do dia-a-dia a alma humana. A Arte, sabemos, nunca mais foi a mesma depois de Sigmund Freud.
Movimento basicamente literário em sua gênese, o surrealismo espraiou-se pelas demais manifestações artísticas, sobretudo as artes plásticas, da década de 20, depois do célebre ensaio de André Breton, O Surrealismo na Pintura. E daí à nascente arte da fotografia e ao também iniciante cinema. Un Chien Andalou (Um Cão Andaluz), de Luis Buñuel e Salvador Dalí, é de 1928. A foto Violino de Ingres, obra-maestra de Man Ray, é de 1924.
Podemos concordar ou discordar do surrealismo e dos surrealistas mas jamais negar a um ou a outros a sua poderosa, incisiva e vertical influência na arte ocidental deste século. Muitos de seus astros acabaram a cavalo de outra utopia, logo depois, motivados pela Guerra Civil Espanhola, alinhando-se entre os republicanos, perdendo a guerra, e alistando-se, com radicalidade não menos feroz, nas fileiras do comunismo. Louis Aragon, o maior exemplo e a maior prova. Depois disso, a Segunda Guerra, com seus horrores e polarizações, e logo a seguir o início do fim de todas as utopias - a invasão da Hungria em 1956 pelas tropas soviéticas. Mas esta já é outra história - ainda que, de novo, extensamente surrealista. (W.B.)





