Retrato sem retoques de um perdedor
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quinta-feira, 30 de abril de 2009
Carlos Eduardo Lourenço Jorge<br> Especial para a Folha 2 
Há ocasiões em que o destino interfere com boa mão na produção cinematográfica.
Foi o que ocorreu com ''O Lutador'', em lançamento hoje na cidade (veja a programação de filmes na página 2). Sondado para o papel central, Nicholas Cage recusou a oferta para interpretar o personagem Randy ''Carneiro'' Robinson, lutador de ''wrestling''. Ainda bem. O diretor Darren Aronofsky chamou então Mickey Rourke, e desde logo defendeu energicamente a participação do ator, com certeza intuindo a mágica inter-relação que, entre a ficção e a conturbada biografia do ator, fluiria muito bem na tela. E é o que ocorre de fato.
Alçado à frágil categoria de mito erótico da década de 1980 pelo tórrido (hoje algo gélido, perto dos sucessores) ''Nove Semanas e Meia de Amor'', na década seguinte Mickey Rourke levaria sua carreira a uma espiral auto-destrutiva que culminou inclusive em sua conversão a lutador profissional de boxe. Apagado por escassos êxitos esportivos, ele tentou dissimular os golpes e as feridas do rosto com plásticas e outros recursos corretivos que terminaram por desfigurá-lo. Paradoxalmente, esta deformação facial, aliada aos 16 quilos que ganhou para compor Randy Robinson, resultou não apenas funcional como deu total credibilidade à sua performance em ''O Lutador''.
Há ainda mais, no entanto. Por trás do sofrimento, da decepção e do medo que acompanham o personagem ao longo da narrativa, podem ser recordadas as experiências vividas por Rourke fora das telas, as memórias de seu mergulho no inferno. Nesses momentos, quando ''O Lutador'' transcende o cinema e se torna documento real, quando realidade e ficção se reconhecem unidas na dor é que o filme se agiganta, e o ator encontra sua melhor forma para redimir o homem.
Randy ''Carneiro'' Robinson é um profissional dos ringues, ex-ídolo da modalidade luta livre, que se nega a abandonar aquele que foi o ofício de uma vida, embora já tenha passado dos cinquenta. Seus dias de glória e celebridade há muito se foram, e ele deve se conformar com um circuito de combates bem mais modestos. Mas um enfarte o obriga a se afastar da luta livre. Sem trabalho estável, ele decide se moldar à nova realidade.
Tenta recuperar a amizade da filha com quem não fala há anos (único ponto vulnerável do roteiro). Tenta estabelecer uma relação afetiva com uma stripper (magnífica Marisa Tomei). Tenta esquecer o apelo do wrestling, um dos mais populares entretenimentos nos Estados Unidos. Tenta, mas como nas encenações no ringue, Randy pretende moldar uma vida que não conhece. E faz de conta por faz de conta, ele opta por reencontrar o carinho dos fãs, aceitando um desafio que pode ser o último. Da carreira e da vida.
De certa forma, também o destino saiu em auxilio do diretor Darren Aronofsky. No mesmo Festival de Veneza que dois anos antes, e com justiça, o execrou pela bobagem chamada ''A Fonte da Vida'', ele se redimiu e acabou consagrado ano passado com o Leão de Ouro dado a ''O Lutador'' como melhor filme da mostra. E também o melhor filme dele até o momento.
Este estudo intenso e emocionante em torno de personagens perdedores, desolados e aferrados a escombros da própria dignidade somente encontra paralelo em ''Fat City'', inesquecível épico sobre o fracasso que John Huston dirigiu em 1972, com Stacey Keach vivendo o boxeador decrépito.
As interpretações de Rourke, imenso em sua ruína caricaturesca, e de Marisa Tomei, progressivamente valente em sua maturidade, são capítulo à parte. E a imagem final é desses momentos que engrandecem o cinema, a retina do espectador dividida entre cérebro e coração.


