Retrato quase fiel
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terça-feira, 07 de outubro de 2014
Geraldo Bessa<br>TV Press 
Os olhos atentos e o humor fino de Zezé Polessa ficam ainda mais aguçados ao falar dos exageros e impropérios de sua personagem em "Império". Na pele da oportunista Magnólia, a atriz diz que pode experimentar a tragicomédia de forma mais realista. E mesmo sendo um retrato ficcional, acredita que existem muitas Magnólias à solta. "Ela é a representação do ser humano que quer se dar bem à custa dos outros e sem esforço algum. Vale incentivar o filho a lucrar com o corpo, usar a filha para a arrancar dinheiro de alguém e se fazer de coitada para sair por cima. Ela vive no limite do absurdo", conceitua.
A complexidade da personagem aumenta o prazer com que Zezé lê e estuda o texto de "Império". A cada novo bloco de roteiro, ela se mostra curiosa para saber por qual caminho Aguinaldo Silva levará a família de Severo, papel de Tato Gabus Mendes. "Algumas cenas estão sendo cortadas, mas espero que Aguinaldo mantenha sua ideia inicial. Falta esse tipo de crítica e ironia na tevê", destaca.
Carioca, formada em Medicina, mas totalmente voltada para as Artes Cênicas, em boa forma aos 60 anos, Zezé se orgulha da versatilidade e autonomia que conquistou ao longo da carreira. Na Globo desde "Top Model", de 1989, a atriz sempre se manteve longe das vaidades da carreira e próxima de sua base, o teatro.
Assim que "Império" chegar ao fim, ela volta a rodar o Brasil com sua premiada versão de "Quem Tem Medo de Virginia Woolf?", onde também atua como produtora. "Neste momento, não seria legal acumular coisas. Tenho gravado demais e estou gostando muito da resposta da trama. Estranhamente, a Magnólia tem um grande apelo popular", ressalta.
Dentro da trama de "Império", sua personagem serve tanto para alívio cômico como para cenas mais densas. Você acha que, apesar dos exageros de uma novela, Magnólia é uma mulher possível?
Minha personagem é uma sobrevivente. Ela tem um lado cômico sim, mas ele é carregado de um amargor, de um sofrimento. O riso dela vem da humilhação, de não querer fazer nada, de praticamente "vender" os filhos. Magnólia e Severo, em meio à ideia de que os pais servem para suprir as necessidades dos filhos, vão pela contramão. Durante a minha preparação, fiquei sabendo de histórias absurdas que me provam que, mesmo Aguinaldo pesando um pouco a mão, minha personagem é verossímil.
A Globo está de olho em alguns núcleos de "Império", cortando ou amenizando algumas sequências. O seu núcleo, por conta dos diálogos pesados, é um dos prejudicados. Como encara isso?
Acho que a novela é da Globo e a direção tem todo o direito de cuidar como quiser do produto. No entanto, há de se ter bom senso e levar em conta que estamos no âmbito da ficção e que, por razões artísticas, uma obra não pode ser ceifada dessa maneira. Não sei qual o processo que leva ao corte, mas acho uma lástima isso acontecer. Algumas pessoas se sentem incomodadas e quem paga é todo o público, que esperava ver aquela história ganhar forma de acordo com o que estava previsto.
Muitos atores buscam o teatro para satisfazer suas aspirações mais artísticas e ter autonomia. Você, inclusive, é produtora de suas últimas peças. É dessa forma que consegue ter as rédeas da sua trajetória?
É um pouco de cada. Acho legal ver um projeto meu e da minha equipe chegar ao público, mas a burocracia e o preço de se fazer teatro no Brasil ainda são desestimulantes. Por exemplo, eu perdi dinheiro fazendo "Quem Tem Medo de Virginia Woolf?", mas é uma peça tão boa de se fazer, um texto que vale tanto ser montado, que isso não chega a me importar tanto. Quero entreter o público, mas também fazê-lo pensar. Isso me motiva. É questão de experiência, um dia eu aprendo a produzir e também ganhar dinheiro (risos).
Você está com 60 anos e muitas atrizes da sua idade reclamam da falta de boas personagens. Na contramão disso, você acumula bons trabalhos em tramas como "Escrito nas Estrelas", "Cordel Encantado" e "Império". A que atribui esses convites frequentes?
Esse fato me deixa muito feliz. Quando todo mundo ficou me conhecendo, há mais de 20 anos, em "Top Model", eu tinha muito receio de como dar continuidade à minha carreira de forma legal, fazendo projetos interessantes, nos quais eu estivesse realmente envolvida com o trabalho. Acho que essa minha entrega a cada personagem que chega faz com que outros apareçam. Adoro fazer tevê, mas nunca esqueci do teatro ou do cinema, onde outro tipo de público pode conhecer meu trabalho. Busco esse equilíbrio e acho que está dando muito certo.


