Personagens que são empregadas domésticas raramente têm destaque em novelas. Suas histórias costumam começar e terminar na casa dos patrões e, quase sempre, se resumem às fofocas e funções domiciliares. ''Cheias de Charme'', nova novela das sete da Globo, retira as empregadas do mero suporte de núcleos principais e as eleva a protagonistas.
Taís Araújo, na pele da batalhadora Penha, Leandra Leal, como a sonhadora Rosário, e Isabelle Drummond, interpretando a doce Cida, são as atrizes escaladas para mostrar a realidade dessas profissionais - isso até as três virarem cantoras e ficarem ricas. ''O divertido dessa trama é descobrir o que essas domésticas fazem depois do expediente, quando vão para casa'', opina a diretora de núcleo Denise Saraceni.
O tema da novela, com estreia para 16 de abril, está intimamente alinhado com a estratégia da Globo de investir na nova classe C. Essa parcela da sociedade se mantém em crescimento e, segundo o IBGE, já corresponde a 54% no total da população brasileira, tendo uma renda média familiar de R$ 1.450. Esse é o público-alvo de empresas de todas as áreas. E com a Globo não poderia ser diferente. ''A Globo quer falar com todas as classes. O tema da novela tem a ver com isso. A história da classe C é muito inspiradora'', defende Filipe Miguez, que assina, pela primeira vez, a autoria principal de uma novela ao lado de Izabel de Oliveira.
A estratégia de mostrar e tentar agradar esse segmento de forma expressiva na dramaturgia já havia começado em ''Avenida Brasil'', folhetim das oito. A produção traz o lixão e a periferia como cenários e aborda temas populares, especialmente o futebol. Da mesma forma, ''Cheias de Charme'' tem o fictício bairro Borralho - inspirado nas comunidades cariocas Cantagalo, Dona Marta e Rio das Pedras - como local de moradia das protagonistas. ''Há um toque lúdico, mas muitos elementos realistas fazem citações a esses lugares'', analisa o produtor de arte Eduardo Feijó.
As referências culturais também vão ao encontro desse universo. O eletroforró e o tecno-brega são gêneros musicais de forte apelo popular e que foram escolhidos para integrar a história dos personagens, depois que a produção e os autores pesquisaram o que estava em evidência na música. Gaby Amarantos, uma das principais cantoras de tecnobrega, conhecida como ''Beyoncé do Pará'', chamou a atenção dos autores. ''Ela foi uma referência para a gente'', afirma Filipe Miguez.
A música permeia toda a narrativa da novela. Prova disso é que o trio principal começa passando por dificuldades, mas consegue enfrentar as adversidades e fazer sucesso como grupo musical. Além disso, Chayene, vivida por Cláudia Abreu, é conhecida como ''a rainha do eletroforró'' e será a principal vilã da história. Em decadência na carreira, ela usará um falso romance com Fabian, de Ricardo Tozzi, para se reerguer. Como o cantor de sertanejo universitário é popular junto às domésticas, seu público mais fiel, Chayene irá chantageá-lo com um segredo para se aproveitar de sua ascensão. ''A Chayene é muito vaidosa e passa por cima de quem atrapalha seu caminho sem remorsos'', descreve Cláudia Abreu.
No início, Penha trabalha na casa de Chayene. Sem suportar os inúmeros desaforos ditos e feitos pela patroa, resolve dar queixa na delegacia. ''Ela passa por muitas dificuldades e problemas, até com o marido, que não gosta de trabalhar. Mas usa o bom humor para superar tudo isso'', conta Taís Araújo, citando Sandro, papel de Marcos Palmeira. Enquanto espera pelo delegado, ela conhece Cida, que foi levada para o local depois de se meter em uma confusão dentro de uma boate, e Rosário, que invadiu o camarim de Fabian, seu ídolo.
As três se tornam muito amigas, mas têm temperamentos muito diferentes. Rosário é ambiciosa, trabalha como cozinheira e namora o motorista Inácio, encarnado por Ricardo Tozzi. Mas, ao mesmo tempo, sonha acordada com a vida de cantora e em estar nos braços de Fabian. ''O Inácio se incomoda muito com essa adoração que a namorada tem pelo Fabian, principalmente porque ele odeia ser comparado a ele a todo instante'', avalia Ricardo Tozzi, que interpreta os dois personagens. Na trama, Fabian é loiro e de olhos azuis enquanto Inácio tem olhos e cabelos castanhos. ''A caracterização por si só não é suficiente. Diferenciá-los na interpretação é o que importa para fazer o público acreditar que são pessoas distintas'', ensina.
Cida também é trabalhadora como Penha e sonhadora como Rosário, mas é muito ingênua e faz o estilo Gata Borralheira. Tem carinho pela família Sarmento, que a emprega, mas é explorada descaradamente por eles. Especialmente pela patroa Sônia, encarnada por Alexandra Richter. Além disso, vive um triângulo amoroso com o grafiteiro Rodinei e o interesseiro Conrado, vividos, respectivamente, por Jayme Matarazzo e Jonatas Faro. ''Essa é uma oportunidade marcante da minha carreira'', avalia Isabelle Drummond, que encara, aos 17 anos, sua primeira protagonista.

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