Retrato do artista quando jovem
PUBLICAÇÃO
quinta-feira, 16 de outubro de 2008
Carlos Eduardo Lourenço Jorge<br> Especial para a Folha2 
Depois que as obras de grandes autores clássicos já tiveram suficientes adaptações, o cinema começa a observar mais de perto suas vidas em busca de argumentos novos. Ou então parte em busca da origem de suas obras mais famosas. Digamos: sai à procura de pontos de vista inéditos sobre literatos da categoria de Shakespeare (''Shakeaspeare Apaixonado''), Jane Austen (''Amor e Inocência'', por estes dias em exibição na HBO e já nas locadoras, sem passar nos cinemas brasileiros) e este mesmo Jean-Baptiste Poquelin, mais conhecido como Molière.
Pai da Comédie Française, dramaturgo, ator e ácido cronista da sociedade do século XVII, Molière é retratado aqui aos 22 anos, quando, segundo todos seus biógrafos, andou sumido durante vários meses. Em ''As Aventuras de Molière'' (veja a programação de cinema na página 2), o crítico, roteirista e diretor Laurent Tirard aproveita esta prolongada ausência para imaginar o jovem Molière conhecendo os personagens que mais tarde seriam imortalizados em ''Don Juan'', ''Tartufo'', ''O Avarento'', ''O Burguês Fidalgo'', ''O Doente Imaginário'', entre outros títulos.
Assim, ao espectador incauto que for ao cinema guiado por este título de leviana ligeireza, uma sugestão: que se aproxime da sala não com a idéia de encontrar uma cinebiografia burocrática. De minha parte, desconheço detalhes de vida do imortal dramaturgo francês, mas creio que fidelidade histórica não passou muito pela cabeça de Tirard. Em compensação, isto sim, o mesmo espectador que for em frente terá oportunidade de descobrir, com espírito de cinéfilo faminto em busca de desfrutes incondicionais, um filme que, longe dos limites da obra-prima ou de exercício com pretensões ''transcendentalóides'', resulta numa comédia romântica ágil, ligeira e cintilante.
Paris, 1644. Molière (Romain Durys, entregue ao personagem com visível paixão) não é mais que um ator cheio de dívidas que a todo custo tenta levar adiante sua companhia, ''Ilustre Teatro''. Mas a paciência dos credores acabou, e o artista vai para a cadeia (tempos mais estranhos aqueles, que dívidas não pagas davam prisão mesmo...). Até aí tudo bate com a história oficial.
Mas nesta ficção entra em cena um tal Jourdain (Fabrice Luchini), burguês ricaço com pretensões a ator. Ele paga os credores e liberta Molière. Jourdain, casado com Elmire (Laura Morante), bela dama da alta sociedade, quer usar o palco para seduzir a intrigante Célimène (Ludivine Sagnier). O mulherengo Molière, apresentado por Jourdain como Monsieur Tartufo, deve interpretar o papel de tutor sério e exigente, mas se apaixona por Elmire, mulher culta e sensível, esposa cética e amante apaixonada.
Entre amores reais e fictícios, jogos de sedução e de engenho com a palavra, identidades e enredos ocultos, chantagens e falsidades, honra e sacrifício, palavrório vazio e silêncios carregados de sentimentos: assim transcorrem as aventuras amorosas do jovem Molière. O filme é estruturado à maneira teatral, com prólogo e despedida final dos atores dirigidos ao espectador.
Mas Tirard não adota somente os modos do teatro como veículo. Também constrói uma autêntica comédia com seu próprio estilo irônico e caricaturesco. É notável o retrato de tipos que se movem através de aparências ou cobiça, entre a avareza e o prazer sensual - da mesma forma que o dramaturgo plasmou em ''Tartufo'', ''O Avarento'' ou ''As Preciosas Ridículas''.
História de amores e de sua representação, de arrivistas e ociosos, de gênios que buscam inspiração na vida e de novos ricos que nem sabem o que têm diante do nariz, ''As Aventuras de Molière'' é um achado de modernidade, uma comédia inteligente, culta (sem pedantismo), elegante, delicada, preciosa em sua estética. Tudo isso sem abrir mão da crítica aos vícios de uma sociedade caduca.


