Enquanto o ex-ditador chileno Augusto Pinochet está preso em Londres sob acusações de genocídio e tortura, a Editora Record lança no Brasil uma obra que promete colocar mais lenha na fogueira do conturbado período em que o Chile foi dirigido com mão de ferro.
‘‘Canção Inacabada’’ relata a história de Victor Jara, cantor e compositor chileno morto pelo regime militar. A narrativa é de Joan Jara, viúva do músico. O livro sai no Brasil no momento em que é anunciada a compra dos direitos de adaptação da obra para o cinema pela atriz Emma Thompson.
A narrativa passional de Joan remonta desde sua infância até a última vez em que conversou com Victor. Nascida em Londres, começou a carreira de bailarina em 1947, quando entrou para a escola de Sigurd Leeder, onde conheceu o chileno Patricio Bunster, com quem se casou. A companhia de Leeder se dissolveu e ambos se mudaram para o Chile.
Após sete anos, veio a separação. Trabalhando em uma escola de teatro, Joan começou a dar aulas de interpretação para Victor Jara. O jovem tinha optado pelo teatro depois de abandonar o seminário e passar pelo serviço militar. Nascido em Lonquén, Victor era um camponês que, aos poucos, se tornou um dos apoiadores de Salvador Allende.
ReproduçãoVictor Jara canta para crianças numa das poblaciones ao redor de SantiagoCom a saída do Partido Comunista da clandestinidade, e as influências de ‘‘Canto Geral’’, impresso em segredo por Neruda na década de 50, a esquerda cresceu no meio estudantil. Victor Jara passou a se dedicar ao violão e a coletar músicas de camponeses, ao mesmo tempo em que se tornava diretor de teatro - em 1965, ele recebeu os dois prêmios mais importantes do Chile nessa função.
Além de conviver com Violeta Parra, Victor Jara interpretava músicas de Atahualpa Yupánqui e chegou a conhecer Che Guevara e Salvador Allende. À medida que países latino-americanos como Brasil, Argentina e Uruguai sucumbiam com golpes de direita, músicos e intelectuais se dirigiam ao Chile como opção de exílio, ao mesmo tempo em que a música comercial americana tomava conta do país.
Victor Jara aceitava influências musicais de outros países, mas se rebelava contra a propagação do american way of life insistindo em músicas camponesas e composições próprias, que na época eram classificadas como canções de protesto.
ReproduçãoNo Peru, acima das ruínas de Macchu Picchu: uma das últimas fotos de Victor Jara, tirada em julho de 1973Pouco antes dos anos 70, o fosso político entre a esquerda e a direita aumentou no Chile. Os shows de Victor Jara chegaram a causar tumultos com letras que ressaltavam problemas sociais. O país fervilhava em facções e engajamentos políticos.
As eleições de 1970 levaram Salvador Allende à presidência, mas já em meados de 1972 o fantasma de uma revolta rondava o país. Pablo Neruda alertou a população para o risco de uma ‘‘revolução fascista’’ em rede nacional de televisão.
Em 11 de setembro de 1973 veio o golpe liderado por Pinochet. Victor Jara insistiu em ir a uma universidade, onde faria uma apresentação, embora Salvador Allende já tivesse feito um discurso dizendo que ‘‘pagaria com a vida a lealdade do povo’’. Allende morreu, e Jara foi aprisionado no Estádio do Chile, para onde foram encaminhadas milhares de pessoas - o diretor Costa-Gavras retratou o fato em ‘‘Missing - O Desaparecido’’. Victor Jara teve seus pulsos quebrados e as mãos amputadas, antes de ser fuzilado.
‘‘Canção Inacabada’’ é o resultado de várias atividades que Joan Jara vem desenvolvendo para divulgar a obra e a história do compositor. O livro chega com mais de dez anos de atraso, pois a edição original em inglês e espanhol é de 1983. O sentimentalismo do relato é compensado pelos detalhes de uma época singular na história da América Latina que ainda hoje apresenta reflexos. A prisão de Pinochet é apenas um deles. O livro foi editado pela Record com 368 páginas, e será vendido em todo o Brasil pelo preço de R$ 29,00.ReproduçãoVictor Jara: morto durante o golpe de Pinochet, ele entrou para a história do Chile como um revolucionárioRanulfo Pedreiro

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