RETRATO DE UMA VIDA AOS EXTREMOS
PUBLICAÇÃO
sábado, 22 de julho de 2000
Francelino França De Londrina 
Para uma mente inquieta, sobrevivendo no fio da navalha das doenças psiquiátricas, qualquer movimento em falso é um corte profundo. Por isso, o desejo latente da pessoa vitimada por um distúrbio psiquiátrico é transpor as limitações decorrentes dos delírios, controlando as fases obscuras. Quem passa por essa experiência de controle das doenças da mente, sente-se compelido em passar esse conhecimento para frente.
Esse é o caso de William L. (pseudônimo), portador da psicose maníaco-depressiva, doença de cunho genético, de diagnóstico difícil e tratamento impreciso. Ao superar um turbilhão existencial, vitimado pelo agravamento da patologia, William L. escreveu o livro revelador e terno Dentro da Chuva Amarela, projeto abraçado pela Geração Editorial, já disponível no mercado.
A patologia deixava-o com os pés em duas canoas, numa trajetória desgovernada, dificultando o relacionamento com todos ao redor. Na depressão, apresenta cansaço, náusea, confusão mental, humor sombrio, pessimismo. No outro lado da moeda, William convive com o otimismo exagerado, insônia, transborda energia. Acelera, quando todos parecem quase parados, e hiberna, quando todos parecem alucinados. Numa das fases maníacas, explicitamente descarrilado, chegou a entrar numa livraria e saciar a fissura comprando 54 livros de uma só vez.
William incide um foco de luz sobre as dificuldades em sobreviver num pêndulo emocional, ora com um gás e energia incontroláveis, ora afundado no pântano da solidão. A psicose maníaco-depressiva forjou uma vida de extremos. O relato do jovem William L. preenche o imaginário do leitor, numa linguagem fluente, revelando os momentos da alternância de sua gangorra emocional. Em alguns trechos, percebe-se um enfoque mais sombrio, enquanto em outros, a linguagem sai quase telegráfica, transpirando urgência.
Desde a infância, o autor demonstrava nítidos sinais da doença: passei quase toda a infância calado, lendo, dentro de um casaco azul-marinho. Aos 11 anos, a primeira tentativa de suicídio. Na adolescência, após um delírio literário em plena fase maníaca, tentou participar de um concurso nacional em todas as categorias (romance, conto, livro infantil, teatro e poesia). Esgotado física e emocionalmente, nova tentativa de suicídio.
A via crucis por consultórios médicos para encontrar uma solução para esse descompasso emocional obrigou William L. se tornar um expert no assunto, devorando livros abordando a patologia. Foram incontáveis as sessões com psiquiatras, psicólogos, terapeutas e acupunturistas. Experimentou terapia de vidas passadas e Florais de Bach. O desconhecimento da medicina sobre a psicose maníaco-depressiva fez com que William desse preferência a um tratamento de abordagem holística, sem o reducionismo da alopatia. Mas a luz no fim do túnel brilhou com mais intensidade quando ele começou a trabalhar voluntariamente no Samaritano (um correspondente do C.V.V.), dando atendimento via telefone a pessoas solitárias.
Os números são nebulosos, mas cerca de 1,5 milhão de brasileiros são portadores da síndrome maníaco-depressiva, segundo o médico Frederico Navas Demétrio, do Instituto de Pesquisas da USP. Como o diagnóstico é obscuro, muitos portadores da patologia atravessam uma existência sem se dar conta que carregam esse distúrbio genético.
Por isso, desnudar a memória contando a aceitação de uma doença tão funesta, a busca por um tratamento mais humano e a convivência com as próprias limitações transforma o autor num arquétipo de vencedor. Por telefone, de algum canto do Brasil (o autor prefere preservar sua imagem), William L. falou à Folha2 sobre como está o controle da doença e de que forma pode-se trocar figurinhas com ele sobre o assunto. É preciso contar, relatar, quase uma obrigação escrever e publicar, resumiu William L. sobre o processo terapêutico e catártico que foi escrever Dentro da Chuva Amarela. A seguir, trechos da entrevista.
Por que o diagnóstico da psicose maníaco-depressiva ainda é tão impreciso e o tratamento tão desencontrado?
Primeiramente, porque lida com emoções. Isso é muito subjetivo, não é um terreno delimitado. As doenças ligadas à emoção são difíceis de serem diagnosticadas, como não são chagas abertas, acabam sendo levadas para a questão da personalidade. Depois, o sistema médico brasileiro não está preparado. É preciso tirar a psiquiatria do limbo em que se encontra. Se uma pessoa está com gastrite, a doença é aceita com naturalidade. Mas quando tem uma alucinação, é vista com os olhos embaçados da desconfiança. Pode-se perceber os sintomas da doença em pessoas que vivem em situações limites, correndo em alta velocidade, consumindo drogas. Pela grande quantidade de acidentes, dá para perceber maníacos disfarçados.
Por ser uma criança tão atípica, sem energia, seu caso não era gritante já na infância?
Eu era um aluno apagado, me recusava a comer. Era levado ao médico, que prescrevia vitaminas e tônicos para estimular apetite. Há 10 anos, a depressão não era considerada uma doença.
Sua doença está sob controle?
Essa pergunta todos me fazem. Costumo responder que Freud tinha razão: conhecimento é poder. É preciso distinguir o que são as emoções verdadeiras e as maníacas. É claro que tenho minhas cotas de leão para matar todos os dias, mas aprendi a lidar com isso. Aprendi a separar o cansaço do dia-a-dia ao cansaço da depressão. Não tomo mais medicamentos controlados, não tenho mais distúrbio graves. De vez em quando faço acupuntura, que vai diretamente trabalhar no campo energético, lida com o sistema nervoso central. Não temos uma cura total, essa é uma doença de fundo genético, nem todos desenvolvem.
Mas buscar auxílio nas terapias alternativas também não é correr um risco maior ainda?
Essa é uma questão delicada, pois cada caso é um caso. Mas há vários modos de se lidar com a questão. A alopatia é devastadora com os efeitos colaterais fortes.
Você foi contatado por outras pessoas que convivem com a mesma doença?
Por muitas pessoas, como um livreiro, portador da doença, que coleciona livros sobre o assunto. Eu disponibilizei um e-mail (williaml89@hotmail), que está facilitando esse contato.
Parafraseando Albert Camus, você está mais feliz ou está apenas consciente?
Mais consciente, porque a consciência te dá mais tranquilidade e tranquilidade é felicidade.


