Retrato de uma mulher ousada
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segunda-feira, 12 de outubro de 1998
Isadora Andrade TV Press 
Quando decidiu filmar a vida da atriz Odete Lara, a diretora Ana Maria Magalhães não tinha idéia de como era complexa a trajetória da atriz. Percebi tarde que o projeto era ousado demais, confessa a cineasta. Mesmo ciente das tragédias que marcaram a vida de Odete Lara - como o suicídio da mãe, uma complicada relação com o pai e a obstinação em ser atriz em 1950, numa época em que os artistas sofriam preconceito moral da sociedade - a diretora decidiu seguir em frente. Com um polpudo orçamento - para padrões brasileiros - de US$ 4 milhões, Lara começa a ser rodado em janeiro, no Brasil e na Itália.
Arquivo FolhaOdete Lara: uma artista multimídiaEntre outras histórias, a diretora vai contar a experiência da atriz como garota propaganda da TV Tupi. Apesar dos pedidos da diretoria da emissora, a atriz não sorria para as câmaras. Ela dizia que não sorria porque não tinha vontade, diverte-se Ana Maria. Enquanto não começam as filmagens, a cineasta aproveita para reler o roteiro do filme, escrito por Paula Cavalcanti com a colaboração de Felipe Miguez e da própria diretora. A história foi inspirada nos livros Eu Nua e Minha Jornada Interior, duas obras autobiográficas, e aborda momentos como a estréia no TBC - Teatro Brasileiro de Comédia - a passagem pelo Cinema Novo e a fase boêmia da atriz. Também mostra quando gravou um disco com Vinícius de Moraes - o primeiro em que o poeta aparece como cantor.
Para viver Odete, Ana Maria convidou Leandra Leal, que, no momento, vive a Clarelis da novela Pecado Capital. A jovem vai interpretar a personagem na fase adolescente. Apesar de ainda não estar confirmada, a cotada para o papel de Odete depois dos 18 anos é a atriz Ana Paula Arósio. Além delas, o filme conta com a participação dos atores Leonardo Brício, Sérgio Mamberti e Giuseppe Oristânio. A trilha sonora, com vários trechos instrumentais, é composta por Dori Caymmi. Quero misturar orquestra com MPB, revela.
O primeiro contato da diretora com a vida de Odete Lara foi aos 25 anos, quando leu Eu Nua. Fiquei impressionada, admite. A partir daí, veio a idéia de filmar a história contada no livro. Os anos se passaram e o projeto acabou sendo engavetado. Um dia, numa conversa com o autor Antônio Calmon, o assunto veio à tona e Calmon encorajou-a a realizar o filme. Por coincidência, dois dias depois acabou encontrando Odete Lara num banco. Falou sobre a idéia e a atriz, apesar de não ter levado a história muito a sério, mostrou ter gostado do projeto. Mesmo assim, por falta de verba, mais uma vez, Ana Maria protelou as filmagens.
O tempo passou e a cineasta não esqueceu a idéia. De tanto pesquisar a trajetória de Odete, acabou reunindo um vasto material. Tenho um armário só dela, brinca. O filme também vai mostrar parte da história da cultura do País. Afinal, Odete Lara foi uma espécie de atriz multimídia. Nos anos 50, trabalhou com Adolfo Celli no TBC, fez cinema, cantou, virou sex-symbol e, depois de atuar na política, foi parar nos arquivos do Dops. Depois da ditadura, participou de algumas novelas na Globo e escreveu os livros contando sua história. Não estou dourando a pílula, mas a Odete foi realmente ousada, afirma. Como pano de fundo, Lara ainda reserva histórias vividas nos bastidores do TBC e nos sets de filmagens de produções em que Odete atuou como Boca de Ouro, de Nélson Pereira, Noite Vazia, de Walter Hugo Khoury, e O Dragão da Maldade, de Glauber Rocha.
Apesar de ser baseado nas autobiografias, o filme vai ter algumas cenas e personagens ficcionais. Fiz isso em função da dramaturgia, justifica Ana Maria. Por isso, figuras que realmente existiram foram fundidas num só personagem e outros foram criados para dar mais dinâmica à trama. A mudança não incomodou Odete. Segundo a diretora, ela já leu o roteiro e tem acompanhado de perto a produção do filme. Ela está bastante receptiva, anima-se a diretora.


