São Paulo - Você não precisa ser especialmente fã de Renato Russo ou do Legião Urbana para gostar do novo documentário de Vladimir Carvalho, mas é verdade que isso ajuda bastante. Depois de inúmeras tentativas, o cinema brasileiro finalmente concretiza abordagens do artista, e da banda. O importante é que Carvalho usa o rock para prosseguir sua investigação sobre a identidade cultural brasilense. ''Rock Brasília'' fecha o que não deixa de constituir uma trilogia. Começou com ''Conterrâneos Velhos de Guerra'', prosseguiu com ''Barra 68''. O que tem a ver filmes tão diversos entre si? Um sobre os candangos que, sem segurança nenhuma e trabalhando como escravos, construíram a Capital Federal. Outro sobre a invasão da Universidade de Brasília durante o regime militar. O centro da cultura e do saber profanado pela violência. O terceiro, sobre o que é ser exilado na própria terra.
''Rock Brasília'' soma horas de entrevistas a gravações (ou filmagens) antigas, que Carvalho já havia feito. Esse material precioso foi resgatado e montado de forma dar um testemunho. Quem foram os jovens que fizeram o rock brasiliense? Qual o seu legado? Eles vieram da classe média, filhos de funcionários, professores, diplomatas. Formaram suas bandas nos prédios das superquadras. E, de repente, à sombra do poder, nos anos de chumbo e da abertura política, estavam refletindo sobre o mundo que os cercava.
O cinema não precisa ser, necessariamente, emocionante. E emocionar-se também não significa se alienar. São as lições de ''Rock Brasília''. Os jovens de 20/30 anos atrás voltam-se sobre o próprio passado, os pais de alguns somam suas vozes para contar as histórias de repressão.
Momentos permanecem - o quebra-quebra no show do Legião Urbana no Estádio Mané Garrincha, em junho de 1988; e o grande show do Capital Inicial, na Esplanada dos Ministérios, em 2008, quando Dinho levantou o público cantando o refrão de Renato Russo ''Que País É Esse?''. ''Rock Brasília'' é, por assim dizer, geracional. Vladimir Carvalho colocou na tela a voz de sua geração. Ao fazê-lo, dialoga com o público atual. Em Paulínia, Brasília e no Festival do Rio, as sessões de seu filme foram lindas. A expectativa é de que seja, também, nesta nova fase que se abre com o lançamento nas salas.

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