Retrato de um pintor maldito
Carlos Haag
Agência Estado
ReproduçãoCartaz: Jane Avril, 1889A sabedoria popular não dá conta dos gênios. Para o pintor francês Henri de Toulouse-Lautrec (1864-1901), tamanho foi documento. Não fosse anão, nunca teria o apoio da família aristocrática, que, embora desaprovasse nobres fazendo arte, a viu como a única terapia para o filho. Saudável, não se teria ocupado em mostrar, nos seus desenhos, a hipocrisia da sociedade. Normal, as mulheres lhe teriam dado o amor que ele, carente, levou para seus quadros. A análise mais completa da trajetória de um dos grandes (em estatura artística) criadores do século 19 está em Toulouse-Lautrec: Uma Vida (Editora Paz e Terra, 379 páginas, R$ 40,00), de Julia Frey.
A biografia beneficia-se do acesso da autora a cartas e documentos do pequeno notável que estavam em mãos de herdeiros. O retrato final do pintor é realista como as ilustrações que ele fazia no calor das noitadas no Moulin Rouge, regadas a absinto e ruivas. Toda a sua vida e arte foram dedicadas a dois princípios: chamar a atenção de sua família - chocando-a com seu desregramento - e, como seus colegas, épater les bourgeois, diz Julia Frey. Ele sabia como desconcertar as pessoas. Uma das fotos do livro mostra-o, com um sorriso maroto, defecando numa praia. A pose foi intencional e ligava-se a uma frase sua, lart est m...: ele decidiu mostrar-se produzindo arte.
Era melhor ridicularizar-se antes que outros o fizessem. Pois a époque podia ser belle para outros aristocratas, mas era feia para Lautrec. Suas pinturas desmitificam o mundo das elites, exibindo seu lado grotesco, a hipocrisia, e revelam a beleza do submundo. Palhaça com Peitos, por exemplo, centra-se numa rotunda figura feminina, vestida de palhaça, mas deixa entrever, de relance, refletido num espelho, um distinto cavalheiro de casaca. Lautrec avisava aos que reprovavam sua vida, que aquilo de que ele gostava abertamente eles também o faziam, secretamente, explica Julia.
ReproduçãoO artista
com uma
modelo,
em seu
ateliê,
no ano
de 1895
Ele achava que todas as suas qualidades eram invisíveis aos olhos das pessoas, que só viam a sua forma desagradável externa, e isso se refletiu, em sua pintura, na recusa em esconder algo só por causa do belo artístico. Se Van Gogh fez 25 auto-retratos, Lautrec retratou-se mostrando a feiúra de seus semelhantes. Queria ligar-se às vanguardas e desenvolveu temáticas e técnicas antiacadêmicas que outros impressionistas rejeitavam. Mas não se pode ligá-lo de todo ao movimento, porque foi um dos únicos artistas do impressionismo a não teorizar em suas criações. Toulouse-Lautrec também era singular em suas origens, o único dos impressionistas nascido numa família da nobreza.
E, ao contrário do que se costuma dizer, ele foi muito unido aos seus parentes, estavam sempre em contato, e Henri recebia deles uma renda mensal de US$ 4 mil, que lhe permitiu viver confortavelmente. Os Toulouse-Lautrec logo perceberam que o trabalho manual da pintura e o universo marginal que vinha com ela podia ser abominável para uma estirpe elevada, porém era uma saída para o pintor, cujo tamanho diminuto era inaceitável no grand monde .
Arrogância Mas Henri viu-se jogado numa vida dupla. Embora morando com a boêmia de Montmartre, gostava que respeitassem seu título de nobreza (essa arrogância lhe foi útil para que desprezasse críticas à sua arte) e guardava um sintomático silêncio sobre assuntos políticos. No caso Dreyfus, por exemplo, enquanto seus amigos estavam do lado do oficial judeu, Henri, embora artista radical, se alienou do debate por fidelidade à sua família reacionária. Ele mantinha um relação patológica de amor e ódio com os pais, iniciada em sua infância, pois, seguindo um conhecido padrão, enquanto sua mãe fingia que ele não era um deficiente, o pai renegava-o.
Alphonse, o patriarca dos Lautrec, era um sujeito difícil. Nos dias mais importantes da vida de um bom burguês, o casamento e o nascimento de seu primogênito, desapareceu para caçar. No leito de morte, Henri homenageou a paixão paterna pelo abate de animais. Você veio, papai: eu sabia que não perderia essa caçada. A última frase do artista não podia deixar de ser para o principal personagem de sua vida. Alphonse era um maníaco-depressivo e transmitiu isso a seu filho, o que explica a obsessão de Henri pelo trabalho, inalterado mesmo nas depressões agudas.
A autora também descobriu cartas em que o nobre fujão se confessa culpado pelo nanismo do filho. Ele era um fazendeiro que estava acostumado com o cruzamento de animais e não lhe escapou o fato de que filhos de ninhadas aparentadas apresentam anomalias. No entanto, esse conhecimento não impediu a união de sua irmã com o irmão de sua mulher, resultando em três primas anãs para Henri. Mas foi por uma prima normal que o pintor se apaixonou e, é claro, foi rejeitado. Henri fez uma série de quadros sobre a menina, mostrando-a como uma criança brincando com um cão, etc, mas, dentre esses, há um em que a retratou nua diante de um homem velho, como se ela fosse uma prostituta.
Nisso, acredita Julia, Lautrec compartilhava o espírito de seu tempo, que dividia mulheres em virgens e prostitutas. Colocando sua mãe na primeira categoria, ele não ousou amar mulheres de bem, que o faziam se sentir incestuoso, explicando a necessidade de transformar a prima, no quadro, em prostituta, para poder amá-la, observa. Por razões semelhantes adorava pintar cenas com lésbicas. As pinturas desses casais têm uma atmosfera de ternura que não se percebe em seus desenhos de encontros heterossexuais, em que homens e mulheres parecem olhar-se e não se ver.
Sentindo-se repulsivo para as mulheres, só conseguia representar carinhosamente o amor em relações que, por ser homem, não estaria incluído. Isso é igualmente notável na tocante humanidade com que representava prostitutas solitárias nos bordéis, após a saída dos homens. Esse mundo unicamente feminino, embora retratado com crueza realista, era belo e humano, diz Julia. Afinal, eram essas mulheres, também desprezadas pela sociedade, que o aceitavam sem rir de seu tamanho. Ele as homenageou, imortalizando-as em suas obras: Gabrielle, La Gouloue, Jane Averil saíram dos prostíbulos para os museus.
Mas foi a paixão pelas mulheres da vida que lhe tirou a sua, aos 37 anos. Avisaram-no que Rosa la Rouge estava com sífilis. Só que ele simplesmente não sabia como resistir às ruivas.





