Retrato da soprano ocupa galeria de honra em NY
PUBLICAÇÃO
domingo, 01 de dezembro de 1996
Carlos Haag 
Quando for ao Metropolitan Opera House, em Nova York, antes de se perder em meio ao burburinho afetado dos engravatados, não se esqueça de que você tem uma obrigação cívica a cumprir. Desça até o último andar, onde fica a galeria de retratos e fotos dos ídolos líricos do passado e, extasiado, admire o imenso retrato a óleo de Balduína de Oliveira, a nossa divina Bidu Sayão. Não deixe de reparar que o seu quadro é um dos maiores do museu informal, e um dos únicos banhados a ganharem o privilégio de uma iluminação quase cinematográfica, que lhe dá ares de Bidu, a cantora inesquecível.
Os americanos podem até pecar pela falta de gosto, mas não fazem essas homenagens a qualquer um, ainda mais se esse, ou essa, longe de ser uma figura anglo-saxônica, ou uma daquelas nórdicas valquirianas, não passar de uma carioca miudinha. Mas Bidu Sayão tinha talento suficiente para derrubar, com o suspiro de sua voz tão pequena, quanto intensa, qualquer cachoeira wagneriana loura. Afinal, a força do rouxinol sempre foi o seu canto suave.
Bidu começou seus estudos de canto, aos 15 anos, no Rio, ouvindo os sábios conselhos de um tio, e o amor pela cidade natal, e pelo Brasil, não a deixou mesmo após uma temporada de aperfeiçoamento em Nice com Jean de Reszké. De volta ao País, estreou, em 1926, como Rosina de O Barbeiro de Sevilha, de Rossini, no Municipal carioca. No mesmo ano, foi a Roma e nem teve tempo de ver o Papa, envolvida em seus compromissos no Teatro Constanzi, que a levaram depois, a se apresentar no Colón, de Buenos Aires. O rouxinol não parava de voar cada vez mais alto.
Depois de um namoro intenso com Nova York, adentrou, vitoriosa, em 1937, o Met, onde fez seu ninho regular até 1951, interpretando Manon, Gilda, Melisande, Violetta, Mimi, e Susanna. O entusiasmo americano saiu dos teatros e chegou à Casa Branca, cujo ocupante, entusiasmado com o passarinho brasileiro, decidiu dar a Bidu o título de Embaixatriz da Boa Vontade. Em 1946, deu seus últimos gorjeios em solo nacional com uma La Boheme, no Rio e em São Paulo. Silenciada, Bidu voltou à cena apenas para contentar o amigo Villa-Lobos que, em 1958, pediu que a cantora o acompanhasse em A Floresta do Amazonas.


