RETRATO DA MORTE
QUANDO JOVEM
A história da morte envolvendo pessoas jovens é narrada em dois livros mais que sensíveis
Marcos Losnak
Especial para a Folha 2
ReproduçãoA vida nada mais é do que a morte brincando no jardim da infância. Com o tempo entra para a turma de alfabetização. Livros de lições, cadernos de caligrafia, tardes de tarefas. O tempo vai passando, as lições vão se complicando, novas matérias, noites de estudos, pesquisas e monografias. Assim a vida segue seus estudos em busca de notas suficientes para passar ano após ano. Dominando várias ciências, senta numa cadeira e fica esperando o sol se pôr como algo natural.
Mas a vida não é tão exata em seus estudos. Em alguns momentos, ela pula o muro e foge da escola correndo para os gramados da morte. Não foge por rebeldia, corre porque precisa correr. Tumultua tudo a sua volta, seus colegas de turma, amigos de estudo, animais de estimação. Seu caminho pode parecer injusto, mas é seu caminho. Talvez mais uma lição, entre tantas, para os companheiros de turma.
ReproduçãoJostein Garden é autor de ‘‘Através do Espelho’’: livro que trata da morte de uma adolescente e sua conversa prévia com os anjosA morte ocorrida na infância e na juventude está presente em dois romances recém-lançados para o público juvenil. Um assunto delicado, mas necessário. ‘‘Bem Perto de Leo’’, do escritor e roteirista francês Christophe Honoré, narra a experiência de Marcelinho, um garoto de dez anos de idade, na eminência de perder seu irmão mais querido, Leo, de 17 anos, contaminado pelo vírus HIV. ‘‘Através do Espelho’’ do escritor norueguês Jostein Gaarder - conhecido autor de ‘‘O Mundo de Sofia’’ - narra a trajetória de Cecília, uma garota de 14 anos, definhando a caminho da morte vítima de câncer.
Lançados pela Editora Companhia das Letras, as obras discutem o mesmo assunto com enfoques diferentes. ‘‘Bem Perto de Leo’’, narrado em primeira pessoa pelo próprio Marcelinho, é profundamente emocional ao encarar a morte que, para ele, significa literalmente perda. ‘‘Através do Espelho’’, narrado em terceira pessoa, está centrado no diálogo entre Cecília e o anjo Ariel. É mais racional, um exercício filosófico para o entendimento dos procedimentos de como a morte faz parte da vida.
Marcelinho é o caçula de uma feliz família de quatro irmãos. Certo dia, pela fresta da porta, entre lágrimas e sussurros, ouve uma conversa dos adultos sobre a doença de Leo, irmão e melhor amigo. Todos procuram esconder do garoto a futura morte de Leo e seu precário estado de saúde. Todos precisam fingir que nada está acontecendo para poupar o garoto da dor. Ele precisa fingir que não sabe de nada, remoendo sozinho o desespero da provável perda.
A sensação de impotência diante da morte do irmão é descrita, aos olhos do garoto, em seu intenso conflito, da seguinte forma: ‘‘Três dias em que faço o possível para esquecer o que está acontecendo lá em casa, no hospital, sei lá onde... Não adianta, sou um prisioneiro da doença do Leo. Na mesa, na privada, brincando: em toda parte, só penso nisso. É um negócio físico que sobe lá de dentro. Primeiro uma onda, uma desorganização, depois um caos. Todas as coisas se apertam e se torcem, fico com a sensação de ser visível demais, de estar exposto demais. De estar ao alcance de todos os ataques possíveis. Sei que não há nada que possa me defender, é uma pancada depois da outra, estou todo dolorido. E ao mesmo tempo não sou atingido, só tocado. Medo. Meu problema é esse. Tenho um número ilimitado de vidas, acaba uma começa a outra, impossível dar o comando ‘game over’. Uma derrota permanente que não aniquila. Eu queria um acidente, um último assalto. Já estou cheio de ficar levando susto a todo momento, de me virar assustado, de me raciocinar. Que ele seja derrotado, então, pois sou pequeno demais pra fazer ele se levantar.’
Jostein Gaarder, em ‘‘Através do Espelho’’, conta o dia-a-dia de Cecília na cama do quarto em suas últimas forças. Todos membros da família sabem que está com os dias contados, mas a morte não passa por sua cabeça. Na época do Natal, um anjo chamado Ariel aparece em seu quarto para longos diálogos sobre as coisas do mundo dos homens e o mundo divino. O objetivo de Ariel é convencer Cecília que seus dias estão chegando ao fim e que a morte não é algo terrível, mas um pedaço da vida. Os dois fazem um acordo, Ariel deve falar sobre as coisas do céu, como é ser anjo e conhecer deus, e Cecília deve falar das coisas da terra e como é ser humano.
Com este diálogo entre um ser terreno e um celestial, o autor vai estreitando as relações entre céu e terra até, num certo sentido, uni-los. O céu se refletindo na terra e a terra se refletindo no céu. Um jogo de espelhos onde a morte seria apenas passar para o outro lado do espelho e a vida vide versa. Misturando elementos filosóficos, religiosos, mitológicos e científicos, Gaarder constrói um texto didático com idéias não complexas apresentadas com leveza, passo a passo.
O interesse de Ariel em conhecer o funcionamento das pessoas de carne e osso é enorme. Graças aos subsídios oferecidos por Cecília, vai estabelecendo conexões sobre seus conhecimentos do mundo celestial e a vida humana: ‘‘Todos os átomos que compõem o seu cérebro vieram do fogo das estrelas. Mas depois eles se agruparam de uma maneira extraordinária e se transformaram nisso que vocês, seres humanos, chamam de ‘consciência’. A alma humana fica vibrando dentro do cérebro, que é um tecido feito de partículas de pó - uma poeira de estrelas que, muito tempo atrás, caiu do céu. Os pensamentos e sentimentos humanos passam como um filme, vezes e vezes sem conta, nessa fina poeira de estrelas, em que todos os fios nervosos podem se conectar de maneiras eternamente novas.’
Ariel não é um anjo comum. Cultiva o desejo latente de sentir as sensações que os humanos sentem. Coisas simples como o frio da neve nas mãos ou gosto do morango na boca. Sentir o que acontece dentro dos sonhos ou como funciona a lembrança e o esquecimento. Em alguns pontos chega a acreditar que Deus cometeu alguns erros em seus seis dias de intenso trabalho.
Em ‘‘Através do Espelho’’ Gaarder trabalha principalmente com o conceito cristão de Deus para explicar o sentido das pessoas nascerem e morrerem. Trabalha com a mitologia cristã da criação do mundo e a expulsão do homem do paraíso como origem do adulto, aquele que provou da árvore conhecimento. Utiliza também, de maneira complementar, a mitologia nórdica na figura do deus Odin e seus dois corvos, Huguin e Munin, que voam pelo mundo durante o dia e pousam, durante a noite, nos ombros de Odin para contar-lhe tudo o que viram. Numa correlação, Deus envia as pessoas à terra (nascimento) para quando voltarem (morte), contarem-lhe o que viram, mais precisamente, o que sentiram.
Em ‘‘Bem Perto de Leo’’, Marcelinho precisa aceitar a morte do irmão querido. Em ‘‘Através do Espelho’’, Cecília precisa aceitar sua própria morte. Marcelinho precisa entender a morte por si mesmo, sem a ajuda de nada nem de ninguém. Precisa encontrar resposta e esperanças dentro de si, do caos. Cecília, ao contrário, está amparada, possui a atenciosa ajuda do anjo. Em ambos os casos, a doença corrói o corpo sem muita preça, parecendo oferecer algum tempo para a reflexão. Algum tempo para dar um última olhada nos cadernos. Revisar as provas, corrigir exercícios errados, apontar os lápis, passar a limpo a matéria atrasada, confirmar com alguém os dias de prova, colocar as anotações em dia, encapar os livros, etc.
‘‘Bem Perto de Leo’’ de Christophe Honoré, Editora Companhia das Letras, tradução de Heloisa Jahn, 73 páginas, R$ 15,00.
‘‘Através do Espelho’’ de Jostein Gaarder, Editora Companhia das Letras, tradução de Isa Mara Lando, 142 páginas, R$ 17,00/Livraria Rosa do Povo, Fone: (043) 321-5691.

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