Santos - Dois dos maiores esportistas do século 20 dividiram uma escalada numérica na casa de leilões Christie's, em Nova York. Parte da série "Atletas", obra de Andy Warhol do fim da década de 1970, o retrato em serigrafia "Pelé" acaba de ser vendido por US$ 855 mil, cerca de R$ 3,6 milhões, superando a estimativa inicial de US$ 600 mil.

Dentre as obras da série, o valor só ficou abaixo do retrato do pugilista Muhammad Ali, outro poderoso mito negro, arrematado um dia antes por pouco mais de US$ 10 milhões, cerca de R$ 42 milhões.

Em Santos, no litoral paulista, o tricampeão mundial está sentado numa sala do Museu Pelé, às vésperas de celebrar os 50 anos de seu milésimo gol. O rosto do craque mantinha a leveza depois de seis horas de abraços em dezenas de visitantes, na noite da última terça (12). Edson Arantes do Nascimento, 79, conta que soube por alto do leilão e aceita relembrar a história do convívio com o gênio da arte pop. A experiência como modelo de Warhol não foi iluminada em sua autobiografia.

"Nem eu o conhecia pessoalmente, nem ele me conhecia. Mas Pelé ele disse que já conhecia, por causa do futebol. E ele falou: 'Conheço você há um monte de tempo. Sou uma pessoa muito mais curiosa do que vocês'. Eu acho que ele queria falar 'mais inteligente', mas aí mudou e falou curiosa. E disse: 'Eu canto samba. Qualquer dia vamos cantar um samba'. Naquela época o Sérgio Mendes estava estourando", diz Pelé.

Em março de 1977, o colecionador Richard Weisman encomendou a Warhol uma série de retratos de dez esportistas, aberta pelo jóquei Willie Shoemaker. Dono da coleção leiloada na Christie's, Weisman, morto no ano passado, não se cansava de repetir que Warhol desconhecia a diferença entre uma bola de futebol e uma de golfe.

Até novembro daquele ano, o artista direcionaria sua Polaroid Big Shot para o rosto de esportistas como o astro de futebol americano O.J. Simpson, a tenista Chris Evert e a patinadora Dorothy Hamill. A fotografia era a base de suas pinturas. Pelé seria congelado com uma bola e um rosto bem menos tenso que o de Ali, num quadro agitado pelas cores verde e azul.

Na década de 1970, os esportistas conquistavam espaço no Olimpo antes exclusivo dos artistas do rock e de Hollywood, uma evolução mitológica captada por Warhol, que retratara Marilyn Monroe e Elvis Presley. Aos 49 anos, o pintor recebia críticas mais frias enquanto mergulhava fundo numa vida social vertiginosa. Aos 37 anos, Pelé era um atleta de popularidade planetária.

Depois de encerrar a carreira na seleção brasileira e no Santos, o jogador retornou em 1975 aos gramados como uma grife capaz de driblar e golear, assinando um contrato de quase US$ 9 milhões - em valores atualizados, cerca de US$ 40 milhões, ou R$ 167 milhões -, além do direito a 50% dos lucros do Cosmos com a sua imagem.

"Na época do Cosmos aconteceu tanta coisa legal para mim. Sem falar inglês direito, caindo num local que só tinha artista, eu falava: 'Caramba, o que estou fazendo aqui?'. E quando vinha artista e eu não sabia que era artista?", diz Pelé, sorrindo.

Tal pacote de fama e cifrões era tão atraente para Warhol quanto uma lata da sopa Campbell's ou um gigantesco anel de Elizabeth Taylor. Aquilo, sim, era futebol arte. Antes de Pelé, nenhum jogador atingira esse nível de celebridade.

Os diários ditados todas as manhãs por Warhol a Pat Hackett, sua assistente - lançados no Brasil pela L&PM -, guardam fragmentos da amizade. "Ele é adorável, lembrou que me encontrou uma vez no Regine's [boate em Nova York]. Ele tem uma cara engraçada, mas quando sorri fica lindo", observou sobre o jogador.

CELEBRIDADES

Pelé se empolga ao relembrar o primeiro encontro: "Teve um jogo do Cosmos, no fim da tarde de sábado, e aí o pessoal sempre tinha um jantar. Depois do jogo, estava comigo Lucas Mendes, o jornalista, e falaram de um jantarzinho [numa boate]. Aí me apresentaram: 'Esse aqui é o Andy Warhol, seu fã'. Eu não saquei muito aquele negócio e perguntei para o Lucas ou para um jogador: 'Quem é esse Andy Warhol? Boa gente, mas o que ele faz?'. Me disseram: 'Pelé, o cara é mais conhecido aqui nos Estados Unidos do que o presidente Nixon'".

Warhol e Pelé se reencontraram em 13 de julho de 1977, na sede da Warner, a controladora do Cosmos. A revista Interview, criada pelo artista, fazia um ensaio com a estrela sul-americana. Dias depois, Warhol voltou a entrar em contato com seu escritório no Rockefeller Plaza. "Alguém me disse: 'Tem que refazer as fotos, naquele dia tinha muito bicão'. Eu falei: 'Pô, outra vez?"

Na nova sessão com Pelé, o artista revisou a célebre profecia dos 15 minutos de fama para qualquer um, incluída em 1968 no catálogo de uma exposição em Estocolmo. "Você é a única celebridade que, em vez de durar 15 minutos, durará 15 séculos", disse Warhol, cujo livro "Polaroids", lançado pela Taschen, incorporou uma dessas imagens.

Três meses mais tarde, Warhol apresentou o retrato da série "Atletas" num jantar oferecido a Pelé por Ahmet Ertegun, do grupo fundador do Cosmos. Assíduos em boates, eles voltariam a conversar outras vezes no Studio 54 e no Club A.

Pelé menciona os amigos Warhol e John Lennon ao se revelar orgulhoso de sua história americana. Na despedida, aperta a mão com o carisma de quem está imerso no próprio mito: "Ao escrever, não esqueça que meu nome é Edson". A poucos metros, numa mesa, repousava uma coroa real dourada. Tudo tão Warhol.

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