Retratando a solidão humana
O romance conta a trajetória da protagonista que dá nome ao livro, descreve suas andanças, sonhos, desencantos, sua relação com as pessoas e consigo mesma na busca por se entender, se conhecer. É um texto que fala da solidão do ser humano. Conceição Evaristo diz que tem se surpreendido com a reação das pessoas ao romance. ''O primeiro retorno que tive foi de uma artista plástica espanhola, ela me escreveu dizendo que tinha acabado de ler o livro, que não entendia nada de cultura negra, nunca havia pensado na história dos negros brasileiros, mas que estava pintando uma quadro ao sabor das emoções, que estava profundamente tocada pela questão humana de Ponciá.''
Segundo a autora, talvez o livro esteja conseguindo alcançar o universal que se reivindica para a literatura porque fala de um sentimento que está presente em todos as civilizações, a solidão. Apesar da personagem ser uma mulher negra, toda a ambiência cultural ser negra, a solidão que a personagem vivência é universal. ''Acredito que ele está ganhando as pessoas porque acima de tudo é uma obra que fala da solidão humana e esse sentimento é característica do branco, do azul, do índio, do negro.''
Conceição diz que não busca retratar apenas a temática negra, mas é claro que a escrita literária dela é profundamente marcada pela condição de mulher negra na sociedade brasileira. Segundo ela, há uma relação muito próxima entre a ficção que cria e a cidadã Conceição Evaristo, mulher negra, professora aposentada do município do Rio de Janeiro, mineira.
A escritora ressalta que seu texto literário não é memorialístico, porque não trabalha cruamente a memória, mas é um texto que vem marcado pela sua experiência, seu cotidiano de mulher afro-brasileira. ''As minhas personagens circundam muito, elas nascem desse espaço social em que vivo, tanto os contos, poemas, como os romances. Esse lugar social e essa condição étnica que vivo é claro que marcam a minha escrita.''
Em um dos trechos do romance, o irmão de Ponciá, Luandi, descobre a escrita e a leitura como formas de construir sua própria história, refletindo a história da própria escritora. ''Descobria também que não bastava saber ler e assinar o nome. Da leitura era preciso tirar outra sabedoria. Era preciso autorizar o texto da própria vida, assim como era preciso ajudar a construir a história dos seus. E que era preciso continuar decifrando nos vestígios do tempo os sentidos do tudo que ficara para trás. E perceber que, por baixo da assinatura do próprio punho, outras letras e marcas existiam. A vida era um tempo misturado do antes-agora-depois-e-do-depois-ainda. A vida era a mistura de todos e de tudo. Dos que foram, dos que estavam sendo e dos que viriam a ser.'' (C.P.)





