Mouros, cristãos, personagens mitológicos, astronautas, símbolos sexuais e veteranos sambistas, entre uma chuva de plumas, confete e lantejoulas invadiram o Sambódromo do Rio na madrugada de terça-feira, última noite dos espetaculares desfiles das escolas de samba.
Durante a segunda noite de festa, a tradicional escola Mangueira simbolizou a paixão e a alegria, a Imperatriz, campeã de 1999 e 2000, a perfeição e organização, e Viradouro, a provocação e a beleza, e a Grande Rio a surpresa e o encantamento.
A Mangueira, a escola xodó dos sambistas brasileiros, mostrou no pé, ao longo da avenida de 700 metros, um enredo que falava da civilização fenícia, que pode ter chegado ao Brasil muito antes dos portugueses, em 1500.
Em um samba dedicado aos fundadores da escola já falecidos e às velhas glórias ainda vivas, a verde e rosa Mangueira foi escolhida por muitos espectadores como uma das favoritas de segunda noite de desfiles.
Minutos antes, a Imperatriz Leopoldinense realizou desfile perfeito que, no entanto, não conseguiu emocionar o público, embora sem dúvida deva estar de novo entre as melhores escolas do ano. O samba contava a história da cachaça, a aguardente tipicamente brasileira.
No primeiro carnaval do novo milênio, a Viradouro quis recordar os sete pecados capitais com o ritmo de sua poderosa bateria e com as musas da beleza da cidade, como Luma de Oliveira, representando a luxúria, o pecado mais cometido no Carnaval.
E se o ano 2000 foi o carnaval do nu feminino e das formas modeladas com silicone, a imagem do ano 2001 foi o de mulheres mais naturais, que mostraram apenas o suficiente para deixar adivinhar o resto. ‘‘Foi o ano das fêmeas vestidas’’, observou outra musa da belaza, Luiza Brunet, madrinha da bateria da Imperatriz há mais de 10 anos e que jamais mostrou seus seios no Sambódromo.
Falando em mulheres, três jovens grávidas acabaram sendo retiradas do Sambódromo durante a madrugada ao sentir as primeiras contrações em plena festa do samba.
Enquanto isso, um astronauta treinado pela Nasa, trapezistas circenses, modelos de renome e mulatas com o corpo nu e totalmente pintado misturaram-se aos sambistas com mais de 80 anos, as apreciadas baianas exibindo seus luxuosos trajes.
Antes de desfilar sob as luzes da avenida, muitas delas recordavam, emocionadas, que, para viver apenas uma hora de êxase na passarela, terão de pagar pela fantasia durante meses, até que voltem a se endividar novamente para o desfile do próximo ano. Nenhum adereço custa menos de 150 dólares, o que equivale a dois salários mínimos brasileiros.
Segundo as pesquisas realizadas durante os desfiles, houve empate quanto à melhor escola de 2001. Em primeiro lugar ficaram a Beija-Flor, vice-campeã de 1999 e 2000, e a Grande Rio, a última escola a desfilar e que encerrou espetáculo no Grupo Especial.
A Beija-Flor dedicou seu enredo a Agotime, uma rainha africana transformada em escrava e que conseguiu recuperar sua majestade no Brasil. A Grande Rio, por sua vez, agora pelas mãos do genial carnavalesco Joãosinho Trinta, contou a história do Profeta Gentileza, um rico empresário carioca que abandonou seus bens materiais para pregar a paz e a boa-vontade entre as pessoas.
Para ilustrar seu enredo, a escola lançou mão de fantasias e carros alegóricos luxuosíssimos e até de um dublê de cinema americano, treinado pela agência espacial Nasa, que causou delírio ao usar um traje espacial que o permitiu sobrevoar a pista do Sambódromo.
O grito pela paz e contra a violência que castiga o Brasil, enredo da Mocidade Independente, também conquistou o público e foi seguida na preferência pela Imperatriz e Mangueira.
Um rigoroso juri de 40 pessoas decidirá hoje quem será a campeã do carnaval mais popular do mundo. A qualidade do samba enredo, a evolução dos passistas, as fantasias e os carros alegóricos são alguns dos quesitos que serão levados em conta para o anúncio da vencedora.
Com o passar das horas, a festa e o desfile das escolas de samba trouxeram o cansaço e, com o último repicar da bateria, a música deu lugar ao silêncio da ressaca. Depois de 18 horas de desfiles ante um total de 80.000 espectadores por noite, o Sambódromo fechou suas portas e encerrou um dos principais capítulos do carnaval brasileiro de 2001.

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