Restaurado, prédio histórico da Light em SP reabre em novembro
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domingo, 24 de outubro de 1999
Por Jotabê Medeiros 
São Paulo, 25 (AE) - Enquanto uns remam para trás, pensando em construir arranha-céus faraônicos e abrir novas pistas para o trânsito condenado da cidade, outros trabalham sério. No dia 17 de novembro será reaberto o antigo prédio da Light, no Viaduto do Chá, edifício neoclássico tombado pelo Condephaat que se integra ao esforço de recuperar o centro de São Paulo. É aquele prédio bonito ali perto do Teatro Municipal, à esquerda, na esquina.
Restaurado por um projeto de reciclagem arquitetônica de R$ 50 milhões, o novíssimo Shopping Light ajudará a formar um corredor de revalorização do centro histórico de São Paulo, até pouco tempo condenado ao abandono. O prédio, formalmente conhecido como Edifício Alexandre Mackenzie (Conselho de Defesa do Patrimônio Histórico, Artístico e Arquitetônico), foi construído em 1929 e tombado em 1984.
Antiga sede da Eletropaulo, a reforma do prédio neoclássico obedeceu a um criterioso projeto de reconversão de uso, que incorporou em todo o processo as mais modernas tecnologias em "arquitetura de reciclagem", segundo a CEI, empresa que o administrará. Foram integralmente preservadas as características arquitetônicas internas e externas do prédio.
Com uma área de 15 mil metros quadrados, o Shopping Light também terá, a partir de abril, a inauguração de um centro cultural. O espaço destinado à cultura fica no 6.º andar do prédio e ocupará entre 6% a 8% da área total do edifício. O prédio também ganhou uma construção anexa de 10 mil metros quadrados, uma área que se integra à parte histórica. Lojas - O shopping vai abrigar, entre outras coisas, uma praça de alimentação com 25 pontos gastronômicos e duas lojas-âncoras, uma delas com área de 6 mil metros quadrados. Quando concluído, o Shopping Light contará com aproximadamente 200 lojas. Localizado em uma das esquinas mais movimentadas da cidade, onde transitam cerca de 1 milhão de pessoas por dia, o shopping desempenhará um papel importante na revitalização do centro de São Paulo.
A conversão de prédios históricos de valor arquitetônico obedece a dois conceitos básicos: a conservação estática, que mantém o prédio com o uso original, e a preservação dinâmica, que representa a mudança ou a reciclagem do uso do imóvel, tecnologia defendida pela arquitetura moderna. "Estruturalmente, o prédio estava perfeito", diz o advogado Paulo Emílio de Castro, diretor-superintendente da CEI Empreendimentos. Ele foi um dos mentores da idéia de transformar o antigo edifício da Eletropaulo em um shopping.
Tudo começou há dez anos, quando a Eletropaulo publicou edital para concorrência pelo direito de uso do prédio. Os diretores da CEI tinham como um dos seus maiores sucessos comerciais o Shopping Piedade, um dos raros shoppings em centros de metrópole no País, em Salvador. Reciclagem - "Vimos o edital e o estudamos a fundo, vencendo a concorrência", lembra Castro. Após ganhar o direito, faltava o principal: trabalhar o projeto de restauração do local. Todas as ações tiveram de ser aprovadas no Condephaat e no Compresp. A arquitetura de reciclagem vem crescendo no mundo principalmente por garantir recursos para preservação de edifícios de valor histórico sem dependência do poder público, dando espaço ao desenvolvimento de empreendimentos privados. Bons exemplos podem ser encontrados em países na Europa, nos Estados Unidos e na própria América Latina.
A Gare DOrsay, em Paris, uma antiga estação ferroviária
construída em 1897, deu lugar ao Museu de Arte Contemporânea; a Union Station, St. Louis, uma antiga estação ferroviária, de 1891, hoje um shopping center, é considerado o maior projeto de reconversão de edifício histórico dos Estados Unidos; o Palais Ferstel, em Viena, construído em 1877, sede do antigo Banco Nacional Suíço, é hoje um edifício de uso múltiplo que reúne restaurantes, teatro, lojas e praça de alimentação. Na América do Sul, a Galerias Pacífico, em Buenos Aires, é outro exemplo de reciclagem arquitetônica. Reconversão - Em São Paulo, a técnica de reconversão de uso pode ser observada em espaços como o Sesc Pompéia, um centro cultural e esportivo que já foi uma fábrica de geladeiras; o Convento da Luz, hoje Museu de Arte Sacra; o Palácio dos Campos Elísios, a Estação Bresser e mais recentemente a Sala São Paulo, na Estação Júlio Prestes, entre outros. No Paraná, a sede do Bamerindus e o Shopping Curitiba também são resultados da reciclagem arquitetônica. A empresa que bancou o projeto, a CEI Empreendimentos, é especializada em shopping centers.
Com prédios históricos, é sua segunda experiência - a primeira foi com o Shopping Curitiba, inaugurado em 1996, instalado no antigo prédio do quartel do Exército, construído no século 19. A CEI tem um contrato de exploração do edifício (com a Eletropaulo, sua proprietária) pelos próximos 50 anos. Em troca, a estatal deveria receber um aluguel de R$ 60 mil mensais
27% do faturamento com os aluguéis das lojas nos primeiros dois anos e 28% a partir do terceiro. Passados os 50 anos, a Eletropaulo receberá o prédio de volta.
O grupo CEI Empreendimentos espera ter retorno do investimento nos primeiros dez anos de operação. Segundo Paulo Emílio de Castro, se o fechamento da loja do Mappin - do outro lado da rua - fosse definitivo, isso prejudicaria o novo shopping. Mas como o grupo Pão de Açúcar, que comprou o Mappin, pretende reabrir brevemente a loja, as coisas devem melhorar ali. "A polarização das atividades comerciais cria um fluxo cada vez maior de clientes", crê Castro.
O edifício Alexandre Mackenzie foi construído por um grupo canadense em duas etapas. A primeira foi entre 1925 e 1942
executada pelo escritório de Ramos de Azevedo. A segunda foi em 1942. Seu estilo neoclássico tardio tem alguns elementos que o tornam peculiar, como a colagem de diversos estilos. Alexandre Mackenzie, o nome do prédio, foi emprestado do ilustre desconhecido engenheiro, vice-presidente da companhia, que esteve por aqui durante o período de instalação do grupo canadense no Brasil.
Nascido no Canadá em 1860, Mackenzie era advogado e exercera essa profissão em Toronto até 1899, quando veio para o Brasil. Veio como representante e, três anos depois, era vice-presidente. Ficou no cargo até 1928 quando, doente, exonerou-se da direção da empresa. Morreu em 1943, no Canadá.


