Simone Mattos
De Curitiba
Uma polêmica está envolvendo o mosaico feito há 36 anos pelo italiano Franco Giglio, instalado na fachada do Cemitério Municipal São Francisco de Paula, em Curitiba. Um projeto de R$ 280 mil para restauração da obra, que está completamente deteriorada, foi recentemente aprovado pelo Programa Nacional de Incentivo à Cultura (Pronac), e o valor já está sendo captado junto a empresas paranaenses. Em contrapartida, o mosaicista Adoaldo Lenzi, que avaliou a obra há pouco mais de um ano a pedido da Secretaria Municipal de Meio Ambiente – orgão que administra o cemitério – afirma que o custo não passa de R$ 150 mil.
Ele vai além e afirma que o mosaico não pode mais ser restaurado e que teria que ser totalmente refeito. Para isso, seria necessário um profundo trabalho de registro dos traços de Franco Giglio, através de fotografias e anotações. A complexa tarefa de registrar e refazer o mosaico, na avaliação de Lenzi, não poderia de forma nenhuma custar mais do que R$ 150 mil.
Ele garante que o material que está lá não pode ser reutilizado e atribui isso ao péssimo trabalho de restauração, iniciado há dois anos por um artista do Rio de Janeiro, e que ficou incompleto. ‘‘Foi tudo errado desde o começo. Por que contratarem um carioca, sendo que havia em Curitiba quem pudesse fazer o trabalho?’’, argumenta. Esse artista teria sido contratado pela Construtora Mercês, que estava fazendo obras de reforma em todo o cemitério. Tal empresa não existe mais.
Lenzi acusa o restaurador de ter colado peças de vidro com resina, o que estaria tecnicamente errado. ‘‘Na época antecipei que iria cair tudo, o que realmente está acontecendo agora’’, diz.
Segundo o diretor do Departamento de Serviços Sociais da Secretaria Municipal do Meio Ambiente, Paulo Polati, no último ano cinco quilos de material já foram coletados por funcionários do cemitério. ‘‘Guardamos essas peças caídas do mural para que elas sejam úteis no processo de restauração’’, explica.
Ele conta que o artista indicado pela construtora não chegou a concluir nem metade da restauração e foi dispensado pela própria secretaria. ‘‘Ele trabalhava apenas dois dias por semana, deixando o material sob ação do tempo e da chuva’’, comenta.
Polati não se manifesta sobre a controvérsia na avaliação de custos para a recuperação da obra de Franco Giglio, já que a sua função é apenas a de administrar o cemitério. A reportagem da Folha tentou ouvir a pessoa responsável pelo assunto na Secretaria Municipal de Meio Ambiente, mas a assessoria de imprensa não conseguiu localizar ninguém que pudesse responder tal questão.
A responsável pelo Fundo Municipal de Cultura, que enviou o projeto de restauração para o Pronac, Cassiana de Lacerda, informa que o valor de R$ 280 mil para recuperação da obra foi estipulado por profissionais curitibanos que teriam feito a avaliação do mosaico a pedido do Fundo. Ela não quis citar o nome dos avaliadores.
Controvérsias à parte, o fato é que a valiosa obra feita por Franco Giglio está se deteriorando rapidamente. Polati fala sobre o grande valor do mural – que circunda todo o portal de entrada no cemitério – para a cidade de Curitiba e confessa que se preocupa com a fidelidade ao original, no processo de recuperação.
Na opinião de Lenzi, a cada dia se torna mais difícil fazer uma reprodução fiel do mosaico, já que as peças estão caindo rapidamente. Ele critica a falta de comunicação que há entre a Secretaria de Meio Ambiente e os artistas da cidade e garante que, se tivesse sido consultado antes da aprovação do projeto pelo Pronac, poderia ter dado um orçamento mais enxuto, que agilizaria o processo de captação de recursos.
Ele se diz magoado por ver uma obra tão importante e de valor inestimável estar se perdendo a olhos vistos. ‘‘Sinto pelo Franco, que foi um grande artista, com quem tive a oportunidade de trabalhar’’, comenta.
O muralista italiano Franco Giglio (1937-1982) viveu em Curitiba de 1959 a 1975, deixando um grande acervo na cidade. Não há o registro preciso de quantas obras foram produzidas nesses 16 anos.Mosaico criado por Franco Giglio para cemitério curitibano cai aos pedaços e custo da restauração provoca controvérsias
Mauro FrassonMurais criados pelo italiano Franco Giglio há 36 anos precisam ser refeitos segundo o mosaicista Adoaldo Lenzi que também discorda do custo estimado para a restauraçãoMauro FrassonMosaico de Franco Giglio: faltam pedaços

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