Ressonâncias de uma poesia feminina
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segunda-feira, 30 de agosto de 2010
Nelson Sato<br>Reportagem Local 
Quando for divulgada a programação do ''Festival Literário de Londrina'' (Londrix), que ocorre entre os dias 22 e 26 de setembro, muita gente poderá se surpreender ao constatar a hegemonia feminina na produção local de poesia. Pelo que se fala nos bastidores, as mulheres dominarão a lista de lançamentos do evento.
A poeta Samantha Abreu é uma dessas vozes emergentes. Seu livro de estreia, ''Fantasias para quando vier a chuva'', sai no próximo mês pela Orfeu, selo especializado em poesia da editora carioca Multifoco. Se não patinar na gráfica, a obra deverá saltar para as prateleiras durante o Londrix.
Formada em Letras e atuando profissionalmente na área de marketing, ela percebe o surgimento de novas autoras na cidade, mas não atribui o fenômeno a uma causa particular. Prefere explicá-lo pela ótica das mudanças mais gerais trazidas pela emancipação feminina.
''Há algumas décadas os homens eram mais atuantes em todos os sentidos. A maioria das mulheres estava dentro de casa. As que escreviam o faziam em diários, cartas, guardavam nas gavetas. Não existia um espaço democrático para que as mulheres divulgassem sua poesia na mesma proporção que existia para os homens. Hoje a história é outra. A mulher tá a fim de mostrar o que sabe ou o que gosta de fazer. Se ela escreve, ela mostra e publica para que as pessoas leiam e vejam o que ela tem a dizer'', diz.
Conectada, Samantha acompanha com intimidade tudo o que diz respeito à literatura brasileira feita hoje. Confessa que só começou a levar a sério sua vocação literária após tomar contato com obras de autores contemporâneos. ''Antes eu adorava literatura'', lembra. ''Delirava, achava maravilhoso, estudava escritores como Carlos Drummond de Andrade, Clarice Lispector e Hilda Hilst. Mas era uma paixão como leitora. Só passei a escrever mesmo depois de descobrir o pessoal contemporâneo. Uma experiência marcante foi conhecer pessoalmente Alice Ruiz, Marçal Aquino, Marcelino Freire, Cintia Moscovich, Andréa Del Fuego e outros autores que vieram ministrar oficinas em Londrina. Isso me impulsionou'', conta.
Segundo a poeta, a literatura brasileira atual caracteriza-se pela pluralidade de estilos. ''O que vejo é uma predominânia da mistura, da liberdade textual, da desestrutura. As pessoas escrevem o que têm a dizer e quem lê acaba por avaliar o conteúdo e decidir se foi tocado ou não'', salienta. Ela explica que nunca foi de mitificar escritores. ''Venero mais uma obra especificamente do que o autor, pois acredito que nem todo mundo escreve 100% coisas geniais. Adoro a Clarice, mas já li coisas dela que não me disseram nada. E o inverso também: autores dos quais eu não gostava me ganharam em um texto'', diz.
Se o livro de estreia dela sai só no próximo mês, ninguém precisa ficar esperando. Seus textos estão espalhados na internet, postados em três blogues: Haute Intimité (http://samanthaabreu.blogspot.com), Mulheres sob Descontrole (http://mulheressobdescontrole.blogspot.com) e Versos de Falópio (http://versosdefalopio.blogspot.com). Além deles, Samantha mantém um projeto de video-poemas no Youtube (http://www.youtube.com/saabreu).
Certa beleza
Existe uma beleza nos olhos
de quem sofre
que transborda,
rubra,
em busca
das pequenas
horas.
Há beleza no toque,
no verso
no passo.
Um descompasso
mudo.
Um traço ínfero
de febres suspensas, um
sortilégio
inefável e reluzente.
Alice contra o espelho
Falsas verdades não me parecem mentiras.
Eram apenas demasia
de um capricho transbordando
de mim para o outro.
Alice e o gato,
por horas a fio
atraindo-se pelo recôndito.
O que se mostra não me fascina.
Eu cobiço o incompreensível
e o inexplicável
que me resuma.
Procuro a passagem secreta no tronco da árvore,
e um mundo farto
de dogmas imperfeitos.
Quero apenas um espelho que não me revele.
Da desordem do recomeço
Em nenhuma das costuras que nos remendam ficaremos inteiros. Hão de se esgarçarem aos impactos, hão de se arrebentarem nas rochas. Em nenhum dos retoques ficaremos refeitos. Duas cicatrizes de feridas que sempre doerão e continuarão se abrindo pelo ardor de memórias.
Em todos os consertos nos sobrarão rachaduras. Seremos sempre esse desencaixe. Mãos que não se entrelaçam, suores que não colam, pés que não se enroscam. A cara metade deformada pelo tempo e pela tênue linha entre o amor e ódio, filhos da mesma chama: brasas de uma única fogueira, que fagulham juntas, mas morrem por ventos de distintas direções. Um contorno mal feito, uma descombinação, um descompasso, uma desproporção.
Uma história sem pé nem cabeça.
Pequenas Mortes
De tudo o que me resta e que não seja
amor,
seja
o portão de partida
despedida,
de pequenas causas diárias.
Eu sangro momentos,
derreto venenos,
e morro nos cotidianos fins.
Ainda prefiro
a mortalha
envolvendo
afazeres não entranhados.
Quero a devastação
irreversível
de qualquer pequena vida
vã.


