Rodrigo Teixeira
TV Press
Entre um cigarro e outro, Paulo José degusta displicentemente pedaços de chocolate enquanto recita com facilidade trechos litúrgicos em latim. Com a voz pausada e um raciocínio afiado, o ator de 63 anos lembra da época que estudou no colégio dos padres salesianos, em Bagé, e nos maristas, em Porto Alegre, no Rio Grande do Sul. Para viver o jesuíta Padre Simão em ‘‘A Muralha’’, Paulo José buscou na memória as imagens que o marcaram na infância e adolescência.
Com mais de 20 filmes no currículo e 30 anos de Rede Globo, Paulo José vem emendando um trabalho após o outro desde ‘‘Por Amor’’, em 1997, quando viveu o alcoólatra Orestes. Previsto para fazer uma participação em ‘‘A Muralha’’, Paulo José acabou ganhando permanência. Nem bem chegou das férias tiradas no Sul, o ator embarca no próximo projeto: viver o revisor de livros Pascoal em ‘‘Laços de Família’’, próxima novela das 20 horas escrita por Manuel Carlos.
Portador do Mal de Parkinson desde 1995, Paulo José treme levemente a mão direita. ‘‘O problema do Mal de Parkinson está ligado ao estresse. Quanto mais regular a vida, melhor’’, assegura o ator.
No cinema, você fez muitos protagonistas, ao contrário da tevê. Qual o seu tipo de papel preferido?
Pode ser pequeno, mas ter um momento que a cena é dele. O Orestes, em ‘‘Por Amor’’, era carregado destas coisas e eu trabalhava pouco inclusive. Mas ele era o agente de toda aquela crise familiar. Cada vez que ia ao aniversário da filha, caía em cima do bolo de tanto beber. Viver apenas o amigo do mocinho é pior que ser o cavalo do mocinho. Você fica só de escada, sempre reativo e não ativo. Isto é chato. Gosto do personagem que tenha uma atuação modificadora, independentemente de estar na trama central ou não. O Orestes foi quase uma encomenda, e agora, em ‘‘Laços de Família’’, vai ser também.
Você já tem idéia de como vai viver um revisor de livros?
Estou estudando. Mas ele vai ter uma forte relação com literatura e poesia. Talvez o personagem diga trechos de poemas.
Já aconteceu de você querer sair no meio de uma produção?
Não, porque fiz poucas novelas. Só quando fui convocado a fazer o Shazan em ‘‘O Primeiro Amor’’, em 1972. Estava com um personagem sem função em ‘‘O Homem que Deve Morrer’’, de Janete Clair, e aí acabei saindo no meio da novela. O personagem mandou uma carta dizendo que iria embora. Em novela acontece isso quando o elenco fica carregado de estrelas.
Você está com 30 anos de Globo. Você arriscaria apontar o caminho mais adequado para um ator construir uma carreira substanciosa na televisão?
Olha, tem gente que quer ser artista de televisão. E tem gente que quer ser ou é ator. É bem diferente. O recomendável é não se deixar seduzir pela imagem na tevê, que dá muita popularidade, mas é enganosa.
Não fica complicado quando a Globo começa vender produtos vinculados com as novelas, como em ‘‘Terra Nostra’’?
Acho que a Globo deveria ser mais restritiva em relação ao uso de seus personagens e impor limites mais nítidos. A verdade é que estamos vivendo uma época amoral. É difícil cobrar das pessoas isso, isoladamente, quando está todo mundo metido numa coisa muito selvagem, aparentemente civilizada, mas primitiva e de desrespeito pelo outro. É um pouco salve-se quem puder.
Você trabalhou na tevê praticamente a metade de sua vida. Qual o tipo de função que ela deve exercer na sociedade?
A televisão deve entreter, mas os envolvidos com a televisão precisam ter uma responsabilidade ética sim. Em princípio, porque é uma concessão mesmo. O governo deveria cobrar esta postura ao dar a concessão a determinado grupo. Ter a exigência da tevê servir também como elemento forte de educação. Porque a tevê é o único elemento de penetração total no País. Serviria como uma forma de integração e de elevação do nível da população. Agora mesmo a Globo estava fazendo um seminário sobre programação infantil para rediscutir isso. Tipo: o que a Globo deixou de fazer? Assim como os pais e adultos, a televisão em relação às crianças tem a responsabilidade de educar e ser exemplar. A Globo passa por um processo de crítica interna. As pessoas que trabalham com televisão também têm família e sentem que estão devendo. E estão mesmo.
Como está seu estado de saúde?
Controlado. Estou com uma medicação nova e um neurologista ótimo. O problema do Mal de Parkinson está ligado ao estresse. Quanto mais regular a minha vida, melhor. O que o neurologista fez é receitar uma dosagem pequena distribuída diariamente a cada três horas. Preciso ingerir lepodopa para produzir dopamina para o cérebro. Não consigo parar de trabalhar. É o que me move. Senão fico deprimido.
Qual das suas atividades ficou mais prejudicada?
A locução, um pouco. Tinha períodos que perdia timbres da voz. Por isso, faço exercícios contra os sintomas, que é a tendência do corpo de paralisar, no meu caso, o lado direto. Senão vai endurecendo. Mas a concentração melhorou, tanto que comecei a escrever. O livro com dicas de direção que escrevi é fruto do Mal de Parkinson. Voltei a tocar piano também. Até estou achando mais fácil tocar. O que é engraçado, porque a mão deveria ficar pior. No vídeo não aparece tanto os sintomas, porque interpreto calmamente. Se a vida estiver regulada, não tem problema.