Respirando o céu de um vírus
PUBLICAÇÃO
segunda-feira, 01 de dezembro de 1997
Marcos Losnak Especial para a Folha2 
Marcos LosnakEm alguns momentos de nossas vidas o espelho perde seu brilho e de uma forma inusitada entramos em contato com a dor do outro. Algo diferente do contato com nossas próprias dores, aquelas a que atribuímos peso demasiado de acordo com nossa necessidade. No fundo um território onde estamos frente a frente com nossos próprios espinhos.
Em alguns momentos é mais fácil procurar amenizar a dor alheia do que encontrar as reais causas de nossas dores. Em outras situações é mais fácil procurar curar nossas mais ínfimas dores do que dar a devida atenção aos gemidos do outro.
Na doença, onde o corpo sofre baixas, quedas e implosões, a dor impõe à mente a necessidade de estruturar um novo foco de visão para se relacionar com a vida, ou mesmo um novo foco para encarar a morte a alguns metros de distância. Nos últimos anos o vírus HIV vem mostrar que a necessidade de compaixão frente a dor alheia está além que qualquer fronteira moral ou cultural. A dor do outro passa pelas nossas próprias dores.
A razão é muito simples e, de certa forma, emocional demais. Os ídolos estão deixando de existir. Os amigos estão morrendo. Os desconhecidos estão sendo enterrados. Podemos passar noites sem dormir pensando sobre o porquê. Podemos lamentar que a vida tenha princípios que a mesquinhez humana desconhece. Podemos dizer que somente quando um de nossos familiares, amigos, conhecidos, amados ou amadas entra no território deste vírus, desta dor, a consciência utiliza todos os nutrientes renegados pelo egoísmo diário. As lágrimas são apenas uma capitular que assinala o início de um texto. Até o ponto final, uma longa estrada cruza a humanidade.
O livro O Acompanhante do escritor francês René de Ceccatty, lançado pela Editora 34, pode dar uma noção deste universo. Apresenta uma visão diferente das publicações que nos últimos anos começam a ocupar um novo patamar das livrarias, obras que mostram a batalha de infectados e não infectados em olhar no olho da AIDS. Como o próprio título sugere, René narra sua experiência como acompanhante de um amigo soropositivo da primeira internação hospitalar até o estado terminal - e a morte.
A obra tanto pode ser utilizada como um subsídio para aqueles que convivem com o drama de uma pessoa próxima minada pelo HIV, sejam profissionais da saúde, psicólogos, amigos e familiares, como pode ser lido como uma sensível literatura sobre as perplexidades humanas diante do sofrimento da morte lenta e dolorida. A voz de um acompanhante que assume o papel de elo de ligação entre o doente e o mundo externo. A visão, emocional e ao mesmo tempo profundamente realista, de uma pessoa que assiste o amigo ser levado pela AIDS de mãos amarradas.
O autorRené de Ceccatty é formado em filosofia - foi aluno de Michel Foucault. Autor de vários romances, tradutor de Paolo Pasolini e Alberto Moravia, escreve crítica literária no periódico francês Le Monde. O Acompanhamento, publicado originalmente em 1994, é uma espécie de resposta ao apelo de seu amigo e também escritor Gilles Barbedette, impossibilitado fisicamente de escrever sua experiência frente à morte pela AIDS.
Quase a totalidade do relato está aprisionado entre as paredes de um hospital. Do cotidiano do sofrimento ao descaso das enfermeiras. René deixa claro a necessidade do contato humano além da fria administração de medicamentos. Uma das mais belas páginas de seu relato está na descrição de uma das enfermeiras que atendia Gilles, a única com a capacidade de entender a situação: Ela é triste e dinâmica. Ela costeia um mar onde as banhistas estão se afogando. Observar não quer dizer distanciar-se. Entender não quer dizer entender tudo. Conhecer uma doença não quer dizer que se entende todos os doentes. Uma queixa, para ela, não é um capricho. Um adulto que não pode sair da cama não é uma criança. A vida está em outro lugar, mas a vida também está aqui. Sorrir não quer dizer ter pena. E compadecer-se não é desprezar. Escutar não é perder tempo. Cuidar de um doente é encontrar um ser humano.
Logo a seguir vai mais fundo: A inteligência dela, sua intuição imediata, sua facilidade natural no relacionamento humano não são qualidades automáticas: se ela consegue estabelecer um contato espontâneo e profundo com o paciente, não é porque resolveu, por ética médica ou profissional, que um doente é um doente e que uma doença nunca deve ser considerada como um pecado. Os princípios formais e morais são evidentemente necessários no setor médico, são até mesmo uma exigência absoluta para o exercício da medicina, mas não bastam. Não se deve negar o passado do doente, porque não se deve negar o mundo fora do hospital. É toda uma vida que está aprisionada num quarto, não é só um corpo doente.
René Ceccatty toca em pontos pouco abordados, como a mecanização dos profissionais da saúde em que o paciente é de imediato acusado de colaborar com o inimigo, com a doença. A visão do doente como cúmplice de sua doença. No caso específico da AIDS, muitas vezes subentende-se que o soro positivo procurou a doença.
A morte é a mesma para todos os viventes, o deixar de viver. Mas enquanto não atingimos esse momento, a vida é a mesma para todos os viventes. Ou deveria ser. Seja nos braços Eros ou nos braços de Tanatos.


