RESISTÊNCIA - A eternidade preservada no vinil
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sábado, 07 de junho de 2008
Francismar Lemes<br> Reportagem Local 
Tente imaginar um barco num rio com árvores de tangerina e céus de marmelada ou estar em um trem na estação, com carregadores de plasticina - feitos de massinha de modelar -, com gravatas espelhadas. De repente alguém está esperando lá na catraca. É uma garota de olhos de caleidoscópio.
Quem é ela? Miss ''Lucy in the sky with diamonds'' - uma garota psicodélica, que vive no céu com diamantes, e em meio às flores de celofane amarelas e verdes, crescendo na sua cabeça, sorri toda vez que a agulha do toca-discos a põe para dançar sobre uma pista de vinil.
''Gosto dessa relação saudosista e romântica. Tecnicamente não teria como dizer se é melhor ou pior. Digo apenas, que tem um certo conforto. É como um livro, que não é um objeto qualquer. É cheio, completo e a gente percebe as suas sutilizas e um certo charme''. É assim que o jornalista Jersey Gorgel, apresentador do programa ''Trem das Onze'' na Universidade FM, confessa toda a sua paixão pelo vinil.
A mídia de reprodução musical popularizada nos anos 50, o velho LP ou bolachão, tornou o mundo todo amante de ''Lucy'' e o seu céu de diamantes. Desde que foi lançado, ''Sgt Pepper's Lonely Hearts Club Band'', o cultuado disco dos Beatles, a garota nunca mais parou de se exibir. Para os loucos por LPs essa exibição deve ser eternamente sobre uma pista de vinil.
500 LPs
Gorgel tem uma coleção com cerca de 1.500 LPs mas guarda uma admiração especial pelo acervo da rádio, que reúne 8 mil discos. ''Quando a rádio abriu, há 17 anos, a antiga emissora Cruzeiro estava mudando do sistema analógico para o digital e a universidade acabou comprando toda a discoteca. É um acervo respeitável'', lembra o jornalista. Ele próprio não abre mão dos vinis em seu programa, sendo que algumas gravações somente são encontadas neste formato, uma lista que vai de Zé Ketti à Clementina de Jesus.
Uma geração bastante jovem também aprendeu a descobrir no vinil um repertório que - preferencialmente - é para os acostumados ao chiadinho dos bolachões nos ouvidos.
Aos 24 anos, o estudante de Psicologia Fabrício Ramos de Oliveira, mantém uma coleção de quase 400 discos, reunindo muita MPB e Jovem Guarda. Entre eles, um Noel Rosa inédito que é tocado em um aparelho Philips - marca de antigos conjuntos 3 em 1.''Quem tem ouvido aguçado percebe diferença na sonoridade dos vinis. Na tecnologia atual os filtros limpam muita coisa. Antes existiam menos recursos. Os músicos tinham que mostrar que eram bons mesmo. Discos do Pink Floyd, por exemplo, que têm muitos efeitos, revelam como era difícil fazer isso com pedaleiras'', comente.
Apesar de opiniões fatalistas sobre o destino do vinil, o estudante sai em sua defesa. ''Não acredito que o vinil um dia acabará, mas que está voltando, graças ao preço, que barateou bastante. O maior problema são os toca-discos'', alerta Oliveira.
No Brasil, o futuro do vinil está sendo garantido pelo Ministério da Cultura (MinC). O ministro Gilberto Gil, um dos cantores que vem da época do LP, lançou uma série de medidas para preservar a única fábrica nacional. A Polyson, sediada no Rio de Janeiro, chegou a produzir 110 mil discos de um só título em 2006, fabricando um total de 23 mil exemplares.
Porém, as lojas que guardam, compram e revendem os bolachões registram uma queda na comercialização dos LPs. ''Estamos encerrando o acervo de vinis em duas das nossas lojas, concentrando toda a venda noutra unidade, que terá espaço para um acervo total de 100 mil vinis. A redução na vendagem caiu 50%'', afirma o empresário Marcelo de Oliveira, proprietário dos sebos Capricho.
Nos sebos é possível encontrar não só a dona ''Lucy'', mas também ''Tommy'' (1969), uma das duas óperas rock do The Who, ou Frank Zappa e o seu álbum best-seller importado ''Sheik Yerbouti''. Raridades que custam entre R$ 2 e R$ 50, e que os apaixonados por LPs fazem tudo ver ver deslizando no prato da vitrola.
''Tenho clientes que quando encontram um LP desses trazem a versão em CD para trocar'', comenta o empresário, acreditando que cedo ou tarde, o mundo dos loucos por vinis terá menos habitantes, colonizado pela geração MP3.
O esquadrão dessa resistência pela sonoridade datada tem à frente os toca-discos comprados nas lojas de móveis e eletrônicos usados. José Carlos Gavioni, que desde 1979 trabalha com a revenda de aparelhos de som, garante que a comercialização nunca parou. ''De modo geral, quem compra um aparelho desses são as pessoas mais velhas. Os jovens adquiriram esse gosto, talvez, por herança dos pais'', destaca. Um toca-discos em boas condições custa em torno de R$ 150.
Na loja de móveis usados de Isaías Rosner, a demanda é maior que a oferta.
Para os que trabalham com esse tipo de equipamento, o melhor de tudo é ter uma antiga radiola. ''Essa, eu nunca peguei. Aquilo sim é que é um filé'', anima-se Rosner, quase enxergando os torvelinhos de ''Lucy'', com seus olhos de caleidoscópio sobre uma pista de vinil no velho móvel quadrado com pés de palito e auto-falantes embutidos.
Na ponta da agulha
1887 - Emile Berliner inventa o primeiro disco plano, feito de vidro laminado com negro-de-fumo
1890 - Início das gravações comerciais. Eram utilizados cilindros
de cera, cada um com cerca de dois minutos de som.
1894 - Berliner descobre uma forma de produzir cópias em quantidade, prensando os discos em borracha dura.
1904 - A Columbia lança o primeiro disco com dois lados
1925 - 78 rpm se torna padrão para os discos com a invenção do toca discos elétrico
1931 - A RCA Victor inventa o LP
1934 - A. D. Blumlein inventa o disco estéreo. O termo hi fi ou high fidelity começa a ser usado.
1940 - A RCA Victor começa a fabricar discos em vinil
1948 - O LP, ou Long Play, é lançado pela Columbia, com vinte minutos por lado em 33 1/3 rpms.
1949 - A RCA introduz o disco de 45 rpm
1958 - Álbuns em estéreo estão disponíveis no mercado
( Disco de vinil - Origem: Wikipédia, a enciclopédia livre)


