Setecentas casas, duas igrejas, ruas e becos construídos; três anos de pesquisa; 600 armamentos do século passado; canhões cedidos pelo Exército; 100 técnicos, 6.000 peças de roupas da época, 10.000 figurantes, R$ 6 milhões de investimentos previstos.
Todos esses números justificam a expectativa criada em torno do próximo filme de Sérgio Rezende, que vai rememorar um dos mais importantes conflitos civis da história do Brasil: a Guerra de Canudos.
A saga de Antônio Conselheiro traz às telas atores do primeiro time, como Marieta Severo, Cláudia Abreu, Paulo Betti e José Wilker, que viverá o papel principal. Nesta entrevista, Paulo Betti e José Wilker falam sobre o filme, comparam o trabalho na televisão e no cinema e sobre a importância do cinema resgatar importantes episódios da nossa história.
O filme de Sérgio Rezende - diretor de ‘‘Lamarca’’, seu último trabalho - deve estrear em agosto, no Festival de Cinema de Gramado.
Você foi o narrador de um documentário sobre Canudos, do baiano Antônio Olavo. Agora, atua e produz o filme do Rezende. Este é um tema especial pra você?
Wilker - Tem muito tempo que o tema está próximo a mim. Sobretudo, me atrai a história do Brasil. Acho que a gente conhece pouco o País, conhece pouco a nossa história e para adquirirmos de fato um senso de cidadania, precisamos nos informar a respeito de onde a gente vem. Onde começa a minha crise de identidade? De onde é que eu arranco esta absoluta ironia em relação à vida? De onde é que este país arranca a alegria de uma forma tão simples frente a um quadro de miséria absoluta?
As crises em Canudos e no Contestado, todos da mesma época, foram maltratadas pela historiografia oficial e a população pouco se interessa por esses fatos...
Wilker - A gente aprendeu que o Brasil é um país cordial e condescendente. Mas nós vivemos num país extremamente violento e esta violência se sucede, seja do tipo explícito, seja do tipo mascarado, como o próprio Carnaval. Faz parte da nossa identidade aceitar a violência como algo que faz parte do nosso caráter. Por isso, é uma tendência instituída eliminar esta virulência, esta volúpia, pois é necessário para se governar. Mas o nosso país de verdade é o país do Contestado, de Canudos, do Cangaço, dos Sem-Terra... A nossa história não é a que a historiografia oficial vende. Esta história mentirosa serve para quem nos domina... Não sei se isto acontece de fato, mas digamos que serve a quem, na circunstância, nos comanda.
O Contestado teve em José Maria seu líder messiânico e Canudos, Antônio Conselheiro. Duas tragédias que acabam nos atraindo para figuras terminais e escatológicas...
Wilker - Eu nasci em Juazeiro do Norte. Na minha infância, convivi com romeiros e fanáticos por padre Cícero. Eu via da janela da minha casa as pessoas chegando a Juazeiro, com o corpo coberto de sangue após terem andado léguas e léguas de joelho, se chicoteando para obter alguma graça ou pagar algum pecado. Tudo em torno daquele padre que, pelo menos assim me contaram, possuía uma fisionomia plácida, generosa e calma. De alguma maneira, eu me sinto familiarizado com este tipo de figura escatológica.
E como você se aproximou do Conselheiro?
Wilker - Eu eliminei da minha cabeça as teorias. O Conselheiro é uma figura de muitos proprietários. Canudos é uma guerra de muitos donos. Tem muita gente que já critica antecipadamente o que viria a ser o Conselheiro do filme, em função de uma foto que foi publicada. Eu trabalhei com o arsenal de informações que me foi colocado pela minha vida e pelo meu desejo. O que eu quero, de alguma maneira, não é fazer o que o Conselheiro era. Eu não faço documentário. Eu não registro fatos num livro de atas. Eu quero, de alguma forma, passar para as pessoas, hoje, o sentido da aventura que este cara viveu. Mas será que a aventura que este cara viveu é elucidativa? Se for para alguém, uma pessoa que seja, eu me sinto realizado.
Como você compõe o Conselheiro?
Wilker - Eu parto do princípio de que não sei imitar ninguém. Eu faço um Conselheiro que eu imagino que seja para hoje, não o que ele era. No caso de Canudos, há um mistério absolutamente insondável ligado à figura do Conselheiro e o meu interesse é manter este mistério. eu não quero falar como o Conselheiro, nem medir a barba ou o bigode. Não há nenhuma foto dessa cara e as descrições que fizeram dele são as mais díspares. E a leitura que eu posso fazer de uma descrição por escrito depende do meu humor. Eu posso ler o ‘‘Navio Negreiro’’, de Castro Alves, como uma comédia.
Na novela ‘‘Anjo de Mim’’ seu personagem parecia ser o mesmo de umas cinco novelas passadas. Isto não te incomoda?
Wilker - A novela trabalha com personagens constantes. É um formato do qual não se deve escapar. Talvez, só a novela das oito tenha um pouco de liberdade para escapar ao formato. É uma dicotomia que começa na escrita e que culmina na escalação dos atores. E isto é uma coisa que não me preocupa.
Mas você não é só ator. Você escreve, cria... Não é restrito demais o formato das novelas?
Wilker - Mas não é desafiador? Tem um certo tédio, mas é desafiador. Eu tive uma conversa com o meu chefe na Globo e ele falou: ‘‘Você não vai fazer a novela do Aguinaldo, senão vão descobrir que é a mesma história’’. É uma brincadeira, mas é verdade. A novela trabalha com padrões de dramaturgia dos quais ela não deve escapar. Novela é uma relação de atores. Se há uma boa coxia, é uma boa diversão. Se a coxia é má, a melhor história fica uma m... O nível de profundidade que se exige da novela é outro. Nem melhor, nem pior... Mas outro. O que me parece fascinante na profissão é você encontrar formas de sentir prazer trabalhando num nível e no outro. Eu não quero mudar a televisão. Eu posso direcionar o meu delírio para o teatro, eu escrevo... Eu não quero ser notório, eu quero ser permanente. Pelo menos para mim.
Você vê televisão ou pelo menos as novelas das quais participa?
Wilker - Claro que não. Eu posso montar o meu próprio canal. Hoje eu tenho a Internet, o videocassete, o videolaser... Para que eu veria televisão? Eu tenho 4.500 filmes em casa.

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