Dados históricos estão nos livros e registros, mas conhecer pessoalmente personagens reais responsáveis pela construção e desenvolvimento de uma cidade ou região traz uma proximidade que parece não ter comparação. Essa foi a experiência que um grupo de alunos do oitavo e nono ano do ensino fundamental do Colégio Sesi, de Londrina, tiveram no começo do mês durante uma aula de História em que receberam dois pioneiros do Norte do Paraná, que são avós de alunos: Aya Ono, 84 anos, e Joaquim Antônio Braz, 82 anos.
Em um trabalho interdisciplinar, o projeto bimestral é focado na formação das regiões brasileiras. Os alunos também visitaram a Mata dos Godoy (que ainda preserva trecho de floresta subtropical) e o Museu Histórico de Londrina, além de fazer pesquisas históricas. ''Trabalhamos com o conceito do historiador britânico Jim Sharpe, que desenvolve a ideia da 'história vista de baixo', em que valoriza a contribuição e o esforço dos cidadãos comuns para o desenvolvimento de um país'', destaca o professor Roberto César de Andrade, responsável pela disciplina de História.
E foi diante de objetos antigos dispostos sobre uma mesa - como máquina fotográfica analógica e telefone com discador cedidos pelo avô do aluno Nicolas Cotrim -, que os convidados especiais relembraram fatos importantes da sua história que se mistura com a de Londrina e região. ''Eles são memórias vivas da nossa história, e trazendo-os até aqui ampliamos a possibilidade de estudo dos alunos'', acrescenta Andrade.
Aya Ono, 84, mais conhecida como ''Dona Iaiá'', ganhou notoriedade ao atuar no filme ''Gaijin II - Ama-me como sou'', da diretora Tizuka Yamasaki, em 2005, sendo ganhadora do Prêmio Kikito como melhor atriz coadjuvante. O filme, aliás, chegou a ser assistido pelos alunos que se surpreenderam ao saber que a atriz de destaque era avó da aluna Aline Ayumi da Silveira, 13 anos, que não esconde o orgulho que nutre pela avó que hoje tem 15 netos e uma bisneta, batizada com o seu nome.
Simpática e sempre com um sorriso no rosto, Dona Iaiá não aparenta toda a luta que teve que enfrentar durante 50 anos trabalhando como feirante em Londrina. Considerada hoje uma área nobre da cidade, foi na região da Gleba Palhano que ela manteve com a família propriedade rural para o cultivo das verduras e hortaliças que comercializava. ''A vida era muito difícil e chorava muito quando os clientes que compravam fiado não pagavam suas contas, mas entregava para Deus e continuava em frente'', recorda ela, que veio do Japão com os pais ainda criança.
Da infância humilde, lembra que ficava brincando sob os pés de cafés enquanto seus pais trabalhavam na colheita do grão que impulsionou a economia paranaense no começo da sua história. ''O canto do tico-tico não sai da minha memória. As crianças também brincavam de caçar ninhos'', conta. Sem condições de estudar, contou com a mãe para alfabetizá-la em japonês. ''Sinto vergonha em dizer isso, mas não fui para escola. Mas sei alguma coisa em português e leio e me comunico bem na língua japonesa'', pondera.
Já Joaquim Antônio Braz, 82 anos, nascido na região de Congonhinhas (55 km ao sul de Cornélio Procópio), não se esquece do visual de Londrina quando chegou por aqui em 1969. ''Havia muita 'capoeira', que é um tipo de mato descampado, assim como 'sertão', que é um mato mais denso. Onças e cobras estavam sempre por perto nas áreas rurais'', diz. Algumas ruas conhecidas da cidade, como a Duque de Caxias, não eram asfaltadas e a lama fazia parte do dia a dia da cidade.
Com pouco estudo, ele decidiu trabalhar como vigilante, algumas vezes até em dois turnos, e foi com essa profissão humilde que conseguiu criar com dignidade seus sete filhos. ''A minha origem é bastante simples, mas meus pais sempre me ensinaram a trabalhar com honestidade e a respeitar as pessoas'', ressalta.
Feliz com a casa própria que conseguiu comprar e com o bom encaminhamento dos filhos, recomenda aos alunos que não percam tempo ''com apostas em loteria''. ''Durante 40 anos fiz isso, mas o que consegui foi fruto do meu trabalho'', admite. ''Nossa, eu já admirava o meu avô por tudo que ele fez por minha família, mas agora que conheci melhor a sua história passei a valorizá-lo ainda mais'', reconheceu Giovana Souza Braz, 13 anos.

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