Resgate do humor
PUBLICAÇÃO
sábado, 21 de maio de 2011
Geraldo Bessa <br> TV Press 
Depois de três anos longe da tevê, voltar ao ar era o principal objetivo de Luiz Fernando Guimarães para este ano. A surpresa ficou por conta do formato do retorno: uma novela. Os personagens tipicamente urbanos e atrapalhados dos seriados protagonizados pelo ator deram lugar a Nicolau, o inescrupuloso mordomo de ''Cordel Encantado''. ''Não queria me repetir. Estava sem fazer nada. Até que apareceu o convite. Foi na hora certa e me soou diferente'', entrega. Passada a estreia, percebe-se que a única coisa que permanece intacta na volta do ator aos ''sets'' de gravação foi o humor. Para dar vida ao vilão, Luiz Fernando faz uso de alguns truques já experimentados nos programas dedicados ao gênero, como ''TV Pirata'', exibido de 1988 a 1990, e ''Os Normais'', trabalho que foi ao ar entre 2001 e 2003. ''Ele é muito egocêntrico e só quer se dar bem. Mas faz isso de maneira meio sonsa, apelando para a comédia'', ressalta.
A última novela na qual Luiz Fernando atuou foi ''Uga Uga'', de 2000. O ator confessa um certo nervosismo neste retorno, mas garante que está sendo mais divertido do que previa. ''Não crio dificuldades. As gravações estão ótimas. Fizemos uma viagem incrível no início do trabalho'', relata o ator, referindo-se ao início das gravações, com externas feitas em Paris e no estado de Sergipe. ''O texto brinca com os opostos e faz uma mistura interessante entre o sertão nordestino e a realeza europeia'', acredita.
Nos últimos anos, sua carreira na televisão foi direcionada para séries e projetos de curta duração. As novelas estavam fora dos seus planos?
A direção da Globo sempre me pergunta sobre os projetos que tenho para desenvolver durante o ano. Não existe uma imposição. Eles me perguntaram uma vez se eu pretendia fazer novela. Eu respondi que eu não sabia. Trabalhar em um folhetim estava bem distante daquele meu momento profissional. Não conseguia pensar na possibilidade. Não tinha saudades de fazer novelas, e estava sempre reservado para alguma outra coisa. O convite aconteceu da melhor forma e no momento certo.
Sua última novela foi ''Kubanacam'', de 2000. Como foi o convite para voltar a atuar em folhetins?
O convite partiu da Amora Mautner e do Ricardo Waddington. Eles me ligaram e me mandaram a sinopse. Mas não teve pressão. Eles sabem que novela é um produto bem diferente para mim. Respondi dizendo que nem sabia mais fazer, mas que poderíamos ver como iria ficar. Não tinha esse hábito de gravar tanto, mesmo protagonizando séries ao longo desse tempo em que não fiz novelas. É legal dividir as atenções. Estava muito naquela coisa de só eu no programa. Na primeira conversa que tive com a Amora, ela me falou: ''Venha com bons olhos''.
Na apresentação do elenco à imprensa, a direção da novela deu a entender que atuar ao lado da Débora Bloch foi um fator importante para você aceitar o convite. Até onde a atriz foi responsável?
Trabalhar com a Débora é sempre um prazer. Nós já somos uma dupla para o espectador, acho que isso facilitou muito. Ela ficou feliz com a possibilidade, mas não ficou me cativando. Até porque, ela não queria essa responsabilidade. Vai que eu não ficasse feliz em fazer novela! O que aconteceu foi que, depois do convite, fui gostando da ideia. Não é um projeto qualquer, você não vê uma produção com esta temática, esses atores e essa imagem todos os dias.
E como é voltar a ter uma rotina de gravações, textos e espera para gravar?
O mecanismo é diferente. É como fazer uma peça atrás da outra, mas não estou sentindo muitas dificuldades. Todo mundo diz que fazer novela é um longo processo de espera. Mas não sinto isso. Quando não estou gravando, estou convivendo com a equipe, conversando, me divertindo. É sempre bom começar um projeto com pessoas que você já tem uma química, como a Zezé Polessa, a Mariana Lima, o Tuca Andrada e o Carmo Dalla Vecchia, pessoas com quem já trabalhei e que é bom ver novamente.
Apesar da comicidade, o Nicolau é um dos vilões do folhetim. Como foi a construção do personagem?
Novela é uma obra cheia de mobilidade. Cada dia é uma coisa. Não dá para compor um personagem com início, meio e fim, já que ele vai se apresentando de forma diferente a cada capítulo. Por isso, não utilizei nenhum processo de composição. Não sou adepto dessas técnicas. Não consigo construir um personagem antes de fazê-lo. À medida que a coisa vai acontecendo, ele vai tomando forma. Nicolau é um crápula ambicioso, é assim que ele se mostra no texto. Mas também é um sujeito muito simpático. Estou tentando fazer ele o mais bonzinho possível. Não quero que ninguém me mate na rua. Vai que levam a sério!
Esta alternância entre maldade e a comédia deixa o personagem mais confortável para você?
Acho que equilibra as coisas. O texto tem bons momentos de humor, mas é tudo dosado. Quando pedem, eu dou um tom mais cômico. Quando não, fico quieto para também não exceder na cor. Eu não faço comédia, é a situação que leva a isso. Quando li os primeiros episódios todo mundo riu, mas às vezes a pessoa ri porque a minha imagem está relacionada ao humor.
Seus trabalhos na tevê sempre flertam com o cotidiano moderno de forma exagerada. Você teve algum receio de não funcionar em uma trama mais histórica?
Conversei com a direção antes de começar a gravar. Sou uma pessoa bem livre e não quero me sentir em uma prisão. É algo bem diferente do que eu vinha fazendo, mas está funcionando. Não fiquei tão receoso, pois o máximo que pode acontecer é alguém ficar descontente com o trabalho e as autoras matarem o personagem.
E o que você acha do tom de fábula do texto de ''Cordel Encantado''?
A novela é encantadora, no sentido fantasioso. Só falta ter a Gata Borralheira, a Cinderela e os Três Porquinhos. É uma história linda, contada de forma sincera. Apesar de ser uma trama adulta, tem um tom infantil - ideia para conquistar os telespectadores do horário e as crianças. A aproximação deste texto com o público é diferente, exige uma interpretação mais leve.
Diferentemente do trabalho atual, os últimos seriados que você participou iam ao ar muito tarde. Acha que a novela vai trazer um novo público para sua carreira?
Sem dúvida. Fazer essa novela é uma forma de diversificar não só quem me assiste, mas a minha carreira. Vou pegar um público que eu não sei se é o mesmo que acompanhava os meus seriados. É uma outra vibração, o compromisso é diferente. É legal porque não vai existir uma comparação direta. Estava acostumado a fazer projetos noturnos. E atuar em uma novela das seis cria um distanciamento entre os trabalhos. Além de não dar um ''choque térmico'' na minha carreira, a novela chegou em um momento que eu estava aberto para isso.
''Cordel Encantado'' - Globo - Segunda a sábado, às 18h.


