Resgate de valores
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 26 de julho de 2011
Gabriela Mellão <br> Folhapress 
São Paulo - O acervo de Augusto Boal parecia ter como destino a New York University. O centro de estudos norte-americano era o o único órgão disposto a recuperar, catalogar e digitalizar a memória do fundador do Teatro do Oprimido - a empreitada foi orçada em US$ 500 mil (cerca de R$ 779 mil).
Na semana passada, entretanto, a viúva do artista, Cecília Boal, recebeu um telefonema do Itaú Cultural que pode fazer com que os 20 mil textos (entre eles duas peças inéditas), as 2.000 fotografias e as 300 horas de vídeo de produções teatrais, entre outros documentos do autor e diretor, permaneçam no Brasil.
Eduardo Saron, diretor do Itaú Cultural, confirma o interesse: ''Nossa perspectiva é construir um relacionamento que caminhe para a disponibilização do acervo digitalizado na internet e para chegar a um entendimento sobre qual poderia ser a instituição brasileira a guardar o espaço físico do acervo''.
A psicanalista Cecília Boal acredita que o desejo dele seria que seus documentos permanecessem no país. ''Ele chegou a entregar todos os papéis para Unirio (Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro) em vida'', justifica ela, que acabou recuperando o material posteriormente por achar que o acervo estava em um local inapropriado.
Patriotismo
Augusto Boal (1931-2009) uniu teatro e política na construção de uma arte que buscava engajar o espectador e pensava a sociedade dividida entre dois mundos, o do oprimido e o do opressor.
Ele viveu anos fora do país em consequência do exílio e construiu sólida reputação internacional, sobretudo por seu pensamento teórico.
Apesar disso, era extremamente patriota, segundo conta Cecília. ''Tanto é que, quando teve possibilidade de tirar nacionalidade francesa, se recusou, com medo de perder a brasileira'', justifica ela.
Cecília sonha com a criação de um centro vivo de memórias que também abrigue cursos e exposições. ''Augusto era uma pessoa dinâmica. Não consigo vê-lo em um museu'', afirma.


