A explosão das coletâneas brasileiras chegou à era do rádio. Com os tropeções de praxe, quase inevitáveis no formato, a gravadora EMI acaba de lançar às lojas um lote de 25 CDs duplos reunindo as vozes que tanto encantaram o país entre os anos 30 e 50.
A coleção, intitulada ‘‘Cantores do Rádio’’, integra a série Bis garimpando o baú de um dos períodos mais fecundos e subestimados da música popular brasileira. Francisco Alves, Silvio Caldas, Carlos Galhardo, Elizete Cardoso, Isaura Garcia, Orlando Silva, Dyrcinha Batista e Angela Maria são alguns dos nomes de maior prestígio contemplados no pacote.
Foram reunidas ainda duas compilações – ‘‘Cantores do Rádio Vol.1’’ e ‘‘Cantores do Rádio Vol.2’’ – com faixas de artistas que não ganharam discos próprios. O elenco da série, contudo, é controverso. Ninguém, por exemplo, colocaria o talento da cantora Maysa em questão. Mas muitos reprovariam a aplicação do epíteto ‘‘cantora de rádio’’ à sua trajetória.
Há deslizes também nos critérios utilizados para a seleção dos artistas, o que fica evidente na escalação duvidosa de Hebe Camargo, embora seja salutar revelar seu passado de cantora para as novas gerações que a conhecem apenas como apresentadora de TV. As ausências também se fazem notar. Para ficar em uma delas, como reparar a exclusão de Linda Batista, que foi eleita Rainha do Rádio por 11 anos consecutivos e só aparece com uma mísera faixa em uma das duas compilações coletivas?
Os encartes também irritam quem está atrás de informações, não indo além dos títulos, autoria e ano de gravação das faixas. Um breve texto completa o material: ‘‘O cancioneiro brasileiro começa aqui, e sua forma de expressão mais característica era o samba-canção’’ – diz um trecho. ‘‘Estes artistas foram precursores e fonte para a Bossa Nova e a Jovem Guarda dos anos 60. A maioria desta coleção é inédita em CD, com muito material retornando após mais de 30 anos’’.
Cada disco traz 28 músicas. O repertório restaura os arquivos das gravadoras Odeon e Copacabana transportando o ouvinte para um período da vida brasileira em que o rádio imperava como o principal veículo de comunicação de massas. Um tempo em que todos os ídolos musicais tinham apelidos, atribuídos invariavelmente por radialistas de renome.
Francisco Alves era o ‘‘rei da voz’’; Orlando Silva, o ‘‘cantor das multidões’’; Silvio Caldas, o ‘‘caboclinho querido’’; Elizete, a ‘‘Divina’’; Carlos Galhardo, o ‘‘o cantor que dispensa adjetivos’’; e assim por diante. A Rádio Nacional, do Rio de Janeiro, era a Rede Globo da época. Em seus anos de glória, reproduzia em cera os programas que ali eram apresentados, para que seus artistas pudessem se aprimorar ouvindo aquilo que tinha ido ao ar.
É desses registros que selos briosos como Revivendo, de Curitiba, e Collector’s, do Rio, vem constituindo seu acervo de lançamentos. Convém lembrar que na época, o aparato das gravadoras ainda era rudimentar comparado à estrutura de hoje. Os cantores enfrentavam dificuldades técnicas nas gravações, os discos de 78 rotações chiavam e não havia estúdios de mixagem.
O microfone era o único aliado da garganta diante das orquestras que faziam o acompanhamento. A concorrência entre os artistas não permitia amadorismo. Ou você sabia cantar ou jamais passaria perto de um microfone. O público sabia as músicas de seus ídolos na ponta da língua, os fã-clubes espalhavam-se pelo país e a vida particular dos artistas já era devassada pelas páginas das revistas especializadas e da imprensa marrom.
Um personagem em especial fez furor no meio artístico dos anos 50: a Candinha, que assinava a coluna ‘‘Mexericos da Candinha’’ na célebre Revista do Rádio. Roberto Carlos chegou a dedicar-lhe uma música na década seguinte. Mas Candinha não existia pessoalmente. Era um personagem fictício criado pela publicação para dar vazão às fofocas.
Uma funcionária recolhia semanalmente as sugestões de fuxicos e redigia o material, cuja fonte provinha mesmo dos próprios artistas. Na era de ouro do rádio, entretanto, nada superava em repercussão os concursos anuais para escolher a Rainha do Rádio. O título não era só marketing das emissoras. A faixa e o cetro eram outorgados pelos fãs em eleições diretas. Algumas vezes, a rivalidade descambava para baixarias, a ponto de Angela Maria ser agredida na entrada da emissora por uma exaltada fã de Dalva de Oliveira.
Posteriormente, a Sapoti declararia que a colega cantora teria sido a mandante da agressão. O episódio esfriou a relação entre ambas. Marlene, outra incluída na coleção, nunca pisou o palco da Nacional sem ouvir a saudação da platéia: ‘‘É a maior!’’. Foi a última cantora do rádio antes da consolidação da TV.
Era amiga dos rapazes da Bossa Nova, que frequentavam seu apartamento em Ipanema. Foi para ela que Roberto Menescal e Ronaldo Bôscoli mostraram ‘‘Rio’’, que gravaria em primeira mão. Mas nunca se integrou ao movimento, trocando o Rio pela Europa. Já Elizete Cardoso, também destaque da série, foi a responsável pelo lançamento da Bossa Nova.
É em seu LP de estréia, ‘‘Canção do Amor Demais’’ (1958), que se ouve pela primeira vez o violão de João Gilberto, nas faixas ‘‘Chega de Saudade’’ e ‘‘Outra Vez’’. A partir daí, a Bossa Nova deslanchou anunciando o crepúsculo de um dos períodos mais ricos – e ao mesmo tempo esquecidos – da música popular brasileira.
No livro ‘‘Cantores do Rádio’’ (editora Unicamp), o historiador Alcir Lenharo nota que não se atribui qualquer importância musical a essa época. ‘‘Basta correr os olhos pelas coleções de música popular: ou se privilegia a era de ouro dos anos 30, ou então salta-se para a bossa nova ou pós-bossa nova, quando a música brasileira ganhou a qualificação de MPB’’ – escreve.
O pacote de CDs, que chega agora ao público, tenta dignificar o espólio.

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