RESGATE - Jovens londrinenses e o prazer da arte
PUBLICAÇÃO
sábado, 29 de março de 2008
Francismar Lemes<br> Reportagem Local 
Em São Paulo, Nova York ou em qualquer outro subúrbio do mundo, os jovens da periferia descobrem muito cedo que o elo que une a comunidade é feito pelo amor, pela dor e a cor.
A constatação do ''Manifesto da Antropofagia Periférica'' não derrota a esperança, apostando que dos becos e vielas virá um povo lindo e inteligente, lutando contra o passado e a favor do futuro. O prognóstico de Sérgio Vaz em seu manifesto, idealizador da ''Semana de Arte Moderna da Periferia'', evento realizado no final de 2007, em São Paulo, faz eco em ações como o projeto londrinense ''Vivenciando Cultura''.
Desde 2004, o projeto, que ocupa um Ponto de Cultura no Conjunto Habitacional João Paz (Zona Norte), não une mais os jovens e adolescentes somente pelo amor, pela dor e a cor, mas através do teatro, da música, dança, cidadania, ética e educação.
''As pessoas não investem em resgatar o que há de melhor na sociedade. Cada pessoa tem o seu talento, que somente vai aflorar se houver oportunidade. O que eles querem é colocar para fora o que têm de melhor. Ao criarmos espaço para isso, diminui o acesso à criminalidade. Quando sentem que têm esse espaço, não têm tempo de pensar no que não presta'', comenta a produtora cultural, Darlene Kopinski, que coordena o projeto.
Mudança de comportamento reconhecida pelo Prêmio Escola Viva, em 2007, do Ministério da Cultura (MinC) e do Centro de Estudos e Pesquisa em Educação, Cultura e Ação Comunitária (Cenpec), que promove a premiação, contemplando com R$ 15 mil, os Pontos de Cultura, Pontões, Redes de Pontos e/ou instituições vinculadas às redes, que possuam iniciativas envolvendo ações institucionais de ensino e aprendizagem.
O projeto, que ocupa as instalações de uma Unidade Básica de Saúde (UBS), já atendeu um total de 342 jovens e adolescentes e, atualmente, mantém dois grupos com um total de 26 participantes, que frequentam os cursos de ''Teatro e Canto'' e ''Dança, Canto e Percussão''. Há também uma biblioteca, com um acervo de livros e computadores conectados à internet. Uma máquina é utilizada como ilha de edição na produção de vídeos realizados pelos jovens e adolescentes. As janelas do prédio não precisam de vidros para garantir a segurança e as visitas podem ser feitas a qualquer hora, basta o interessado pegar a chave na casa da pessoa encarregada. Os empréstimos de livros são feitos sem uma data agendada para a devolução.
Para se ter uma idéia da responsabilidade da comunidade com o espaço, alguns computadores nunca precisaram de manutenção, funcionando desde 2005. A própria caixa-preta feita pelos integrantes do projeto e utilizada para os ensaios e apresentações não tem as portas fechadas, mas abertas para a rua - uma platéia que mesmo de passagem sempre dá uma espiadinha no que acontece lá dentro.
Thaise Pereira da Silva, 15 anos, participa desde o início e é uma das inspiradoras do trabalho. ''Eu participava de uma ginástica que a Darlene promovia na praça. Quando a UBS saiu daqui, o lugar ficou abandonado. Sugerimos para a Darlene que poderíamos ter um espaço cultural. Me sinto feliz porque no 'Vivenciando Cultura' eu canto, danço, enfim, é a minha segunda casa'', comenta.
A cadência da percussão ou a arte da interpretação ajudam jovens como Jéssica Daiane Pires, 16 anos, a afinarem o ritmo, escrevendo um novo enredo para a própria vida. ''Eu costumava ficar muito na rua e brigava com as outras crianças. A mãe de uma amiga minha resolveu me trazer para o projeto. Comecei a fazer aula de dança e, hoje, tudo o que eu faço envolve a arte'', lembra Jéssica Daiane.
O ''Vivenciando Cultura'' foi mais além, na trajetória de Gabriela Francisca Barros, 16 anos. A jovem, que estava deprimida a ponto de não sair mais de casa, encontrou motivação nas atividades.
Os jovens e adolescentes já se apresentaram em várias cidades da região e no Guairinha, em Curitiba, e esperam a concretização de um intercâmbio cultural com um grupo da França, que também trabalha com moradores da periferia. ''Há 28 anos, a gente mora na região. Todos os dias, eu saio de casa bem cedo para trabalhar. Praticamente não tive tempo de ver nem meus filhos crescerem. Um sobrinho morreu pegando crack na boca de fumo. É preciso fazer a diferença no bairro em que vivo. Cheguei a essa conclusão'', afirma Darlene, olhando para os meninos e meninas, que estão descobrindo que a periferia tem muitas outras coisas para os unir que o amor, a dor e a cor - aqui ou em qualquer outro lugar do mundo.


