Réquiem por New Orleans
É uma overdose esta que o diretor Spike Lee trouxe ao Festival de Veneza na mostra paralela Horizontes. O documentário ''When the Levees Broke'' (''Quando os Diques se Rompem'') feito em vídeo digital, tem 255 minutos de duração. Embora tenha desarrumado a jornada de quem se dispôs a enfrentar as mais de quatro horas - afinal, os festivais são mesmo para isso -, a sensação de cada minuto ganho compensou a fadiga. É sobre a tragédia que se abateu sobre New Orleans ano passado, causada pelo furacão Katrina. Cidade do jazz, das cores, do carnaval franco-americano, o Mardi Gras. Hoje é a cidade marcada, uma cicatriz que causa mal-estar a toda a população dos Estados Unidos.
Composto em quatro atos, o canto fúnebre de Lee, produzido pela rede televisiva HBO, não deve chegar aos cinemas por razão óbvia. Na telinha será possível não apenas dividi-lo mas também garantir audiência bem maior. São mais de cem entrevistas feitas pelo próprio diretor e milhões de fotogramas do que restou da cidade da Louisiana hoje quase fantasma.
Muitos refugiados ainda não retornaram, a raiva é incontida: ali era o templo da música, ali se ouviu o som dos grandes do jazz, todas as notas de Louis Armstrong. E é com a voz de Satchmo cantando ao fundo ''Do You Know What It Means do Miss New Orleans?'' (''Você Sabe o que é Perder New Orleans?'' que Lee começa o seu filme, enquanto desfilam imagens clássicas mostrando o folclore da cidade.
Mas então intervém a mão do cineasta. A este material se misturam imagens daquele luto recente. Crianças socorridas, corpos sem vida. ''Katrina marcou para sempre a vida dos EUA. Quis fazer qualquer coisa, me senti no dever de fazer qualquer coisa. Dar voz a quem sentiu na pele aquele dia terrível. Não creio que este seja um filme apenas rotulável do ponto de vista político. Creio que é um filme necessário'', disse Lee na coletiva de imprensa. (C.E.L.J.)





