São Paulo, 24 (AE) - A escritura da última composição de Mozart, o "Réquiem em Ré Menor, K. 626", a despeito de concluída por discípulos, é de uma assustadora simetria. Ao adotar o mesmo procedimento de elaboração de seus quartetos de cordas, lidando com um quarteto vocal como uma entidade indivisível, Mozart parecia dizer que a diversidade leva à unidade, amplificando a alegoria religiosa. De certo modo, foi o que tentou o quarteto formado pela soprano Adélia Issa, a meio-soprano Madga Paíno, o tenor Luiz Tenaglia e o barítono Fernando Coutinho Ramos no concerto de ontem (23) com o Coral da Universidade de São Paulo, no Teatro Cultura Artística.
Regida pelo maestro Benito Juarez, a Sinfônica Muncipal de Campinas foi correta, mas não brilhante, na missa mozartiana dos mortos. Faltou força para assustar os vivos com a enérgica Confutatis, o mergulho trágico no território do indiferenciado. Também faltou ataque no Dies Irae, o que parece injustificável em duas partes que definem o espírito da missa. Se a humanidade vai ser reduzida a cinzas, é lícito esperar desses momentos uma vibração monstruosa, dramática, fora deste mundo. Mas a percussão não respondeu à altura. Foi tudo muito discreto.
Pode ter sido uma opção de Juarez, a de não destacar nenhum instrumento como Mozart não destacou vozes na missa, o que seria uma contradição num réquiem que persegue a redenção de todos. De qualquer modo, mesmo não destacando uma voz por muito tempo, o "Réquiem" sofreu com a ausência de Regina Helena Mesquita, que havia assumido anteriormente outro compromisso em Brasília. Foi substituída pela meio-soprano Magda Paíno, aluna do professor Luiz Tenaglia, que cantou a seu lado. Magda não tem dez anos de carreira, mas já participou de várias óperas e cantou a "Missa em Dó Menor de Mozart", no ano passado. Não é sua culpa se Mozart escreveu sua parte para contralto em seu "Réquiem".
Magda teve de concorrer com grandes vozes na memória do público (Ira Malaniuk e Nathalie Stutzmann, para lembrar apenas as gravações de Karl B”hm e William Christie). A comparação é inevitável. O "Réquiem" é um monumento e deve ser tratado assim. Juarez está mais para a versão recente de William Christie, que perde um minuto para a de Karl B”hm (de 1956) só no Introitus. Em outras palavras: foi uma versão mais acelerada do que o habitual, obrigando os cantores a seguir esse ritmo. Os menos experientes (Magda Paíno e o barítono Fernando Coutinho Ramos) sofreram mais para dialogar com a orquestra. Os veteranos
Adélia Issa e Luiz Tenaglia, sabem como usar a técnica para disfarçar o desencontro.
De qualquer modo, o encontro, afinal, realizou-se no "Ave Verum Corpus KV 618". A peça que serviu de orientação estilística para o "Réquiem", oferecida como conclusão e bis, redimiu orquestra e solistas de todos os pecados. Foi simplesmente sublime.

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