"Réquiem Alemão" volta a ser apresentado em SP após 16 anos
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quinta-feira, 15 de abril de 1999
Por Antônia Gonçalves Filho 
São Paulo, 16 (AE) - Antonin Dvorák era um jovem compositor quando conheceu Brahms. O encontro foi decepcionante para o músico checo. "Um homem de alma tão grandiosa e não acredita em nada!", teria dito, quando Brahms apresentou em Dresden, em 1868, o seu "Réquiem Alemão", agora apresentado em São Paulo 16 anos depois da última montagem paulista. DomingO, às 17 horas, no Municipal, e segunda-feira, às 21 horas, no Teatro Alfa Real, o público poderá conhecer as razões da revolta de Dvorák contra o pré-existencialismo de Brahms. Apesar de usar excertos da Bíblia luterana, o "Réquiem Alemão" não é indicado para uso litúrgico. Trata-se de uma obra sem vínculos religiosos. Antes, mostra como o homem moderno encara o próprio fim: com perplexidade.
"Não é um réquiem na tradição de Verdi ou Berlioz, mas um réquiem mais próximo do composto por Fauré, que nada tem a ver com a ira de Deus, mas com a perspectiva de redenção", opina o maestro Jamil Maluf, que sobe domingo ao palco do Municipal para reger uma centena de músicos da sua Orquestra Experimental de Repertório e o Coral Lírico do Municipal, com seus 120 integrantes. Solistas - A produção da Secretaria Municipal de Cultura, ambiciosa, conta com o apoio do Teatro Alfa Real, que vai apresentar a obra de Brahms pagando o cachê dos músicos da orquestra, fundada em 1990 e considerada pelos críticos um dos melhores grupos instrumentais do Brasil. Para os solos no "Réquiem Alemão" de Brahms foram escolhidos dois cantores igualmente prestigiados pela crítica.
A soprano Cláudia Riccitelli trabalhou com Jamil Maluf na montagem da ópera "O Pescador de Pérolas" e tem, segundo o maestro, "o autocontrole necessário para cantar na região dos agudos exigido por sua ária". O barítono Sebastião Teixeira, "o maior tenor de todos os barítonos", conforme definição de Maluf, tem o registro exato para "anunciar o Evangelho como um profeta". Teixeira tem também um histórico curioso, uma voz excepcional que nem sempre esteve a serviço da música, mas de profissões que nada tinham a ver com esse universo melódico.
O público poderá entender tudo o que a soprano e o barítono estarão cantando em alemão. O maestro exigiu que fossem colocadas legendas na parte superior do palco, como nas óperas. "Nesse caso, o texto está intimamente ligado à música e à atmosfera criada pelo réquiem e é importante que o público acompanhe a sua evolução, até mesmo porque a peça dura uma hora e 15 minutos e seria desagradável não entender o que os cantores estão cantando", justifica. Sem gravação - Nenhuma gravadora brasileira, como é de costume, demonstrou interesse no registro dessa que, desde sua estréia, é uma das obras de maior sucesso do Brahms, o autor mais gravado em disco depois de Beethoven. Assim, o "Réquiem Alemão" continua sem registro na discografia brasileira, apesar de ter sido gravado pelos maiores maestros (Karajan, Bernard Haitink) e cantores (Gundula Janowitz, Ebehard Waechter) do mundo.
Maluf adianta que novas oportunidades deverão surgir. Ele pretende manter o réquiem de Brahms no repertório de sua orquestra e gostaria que alguma gravadora ou emissora de televisão registrasse o concerto. "Eu escolhi o "Réquiem Alemão" pensando muito no Coral Lírico, que é um de nossos melhores corpos estáveis", conta. Talvez seja conveniente lembrar que por lá passaram cantoras hoje consagradas, como a própria Cláudia Riccitelli e Celine Imbert.
Composto como uma homenagem póstuma do compositor a sua mãe, o "Réquiem Alemão" é uma reflexão filosófica sobre a condição existencial, mais do que uma missa dos mortos. Comovente e solene, traduz o sentimento de perplexidade de um garoto criado no cais do porto de Hamburgo e obrigado, desde cedo, a ganhar o próprio pão com sua música. Não é um réquiem para apavorar os mortais com o julgamento divino, mas destinado a colocar neste mundo algo de sagrado, promovendo a conciliação entre os homens.


