Depois dos climas de penumbras e luzes nos sucessos de Ângela Maria, Ney Matogrosso volta a se render a uma personagem feminina. Desta vez a deusa é Carmem Miranda. O cantor encheu-se de pulseiras e colares, do brilho musical brasileiro da primeira metade do século, apimentou os movimentos com sua ginga, ajeitou caras e bocas e assim, produzidíssimo, sobe ao palco com o show ‘‘Batuque’’, em cartaz hoje e amanhã no Guairão. Em se tratando de Ney, um espetáculo imperdível.
O show nasceu em razão do CD lançado em março e imediatamente transformado em alvo dos maiores elogios da crítica. O artista faz questão de esclarecer que esta não é uma homenagem a Carmem Miranda. ‘‘Não quis imitá-la. Mas o melhor daquelas décadas passava por ela mesmo. Eu teria que passar, inevitavelmente’’.
Ney vem na contramão do óbvio em que se transformou o sucesso musical com pérolas como ‘‘o de cima sobe/ o debaixo desce’’ e suas coreografias escrachadas. Cansado daquilo que define como ‘‘malícia pesada’’, o cantor buscou a brejeirice e a malícia dos anos de ouro, que caem como uma luva para sua forma de interpretar. Para ele tanto o disco como o espetáculo não são uma maneira de resgatar as velhas canções. ‘‘Essas músicas não se perderam. Estão à disposição de quem as quiser cantar e gravar’’, resume.
A idéia do disco surgiu por acaso, durante um show em meados do ano passado com o grupo de choro Nó em Pingo D’Água, no Sesc Pompéia, em São Paulo. Ney Matogrosso incluiu os números mais famosos de Carmem Miranda no repertório, e a experiência foi tão boa que dali foram direto para o estúdio de gravação. ‘‘Tico-tico no Fubᒒ, de Zequinha de Abreu e Eurico Barreiros, e ‘‘Adeus Batucada’’, de Synval Silva, estavam entre as quatro escolhidas.
Enquanto ‘‘Batuque’’ segue sua carreira nas lojas, o cantor cuidou do show que estreou em São Paulo, tendo no cenário palmeiras prateadas, como naqueles musicais da Atlântida, em que os artistas faziam-se passar por astros em cassinos e boates.
Dono de um corpo muito bem cuidado, Ney dá de ombros para os 60 anos que estão pintando aí. Sopra velinhas dia 1º de agosto. Para fazer valer as horas de malhação e alimentação vigiada, é claro que mais uma vez ele vai tirar as roupas e gritinhos da ala feminina do auditório. Em ‘‘Olhos de Farol’’ deixou ser acariciado pelas fãs, deitado na beira do palco. É uma das marcas de sua performance.
Mas nem só de Carmem Miranda se faz o show ‘‘Batuque’’. Com um eficiente grupo de instrumentistas o artista atravessa por outros terrenos, trazendo ‘‘Batuque na Cozinha’’, de João da Bahiana, que Martinho da Vila deixou com sua impressão digital nos últimos 30 anos. A música, finalmente, encontrou quem desse nova leitura.
Porém, alguns dos momentos mais brilhantes do espetáculo são creditados às interpretações dos velhos sambas da Pequena Notável: ‘‘Voltei pro Morro’’, de Vicente Paiva e Luís Peixoto (que Bethânia relançaria nos anos 60), ‘‘E o Mundo não se Acabou’’, de Assis Valente, ‘‘O que é que a Baiana Tem?’’, de Dorival Caymmi. Não dá para esquecê-la nesta sessão de gingado, balanço e, mais que tudo, do real tempero da música brasileira.
‘‘Batuque’’, show de Ney Matogrosso. Direção do próprio Neu, com direção musical de Rogério Souza. No Guairão, sábado às 21 horas e domingo às 17 horas. Ingressos: R$ 40,00 (platéia), R$ 30,00 (primeiro balcão), R$ 20,00 (segundo balcão). Não serão aceitos cheques.

mockup