Reprise de 'Vale Tudo' é campeã de audiência
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sexta-feira, 12 de novembro de 2010
Patrícia Villalba<BR>Agência Estado 
O telespectador só vê os olhos grandes, verdes e lindos, e ouve a voz, esnobe. Você fica com a gente?, pergunta Celina (Nathália Timberg). Não, viajo acompanhada. Reserve uma suíte presidencial num desses hotéis limpinhos, mas sem mendigos na porta, recomenda Odete Roitman (Beatriz Segall), na cena que foi ao ar ontem (10), na reprise de Vale Tudo no Canal Viva, e marca a volta à TV de uma das maiores, senão a maior, vilã da teledramaturgia.
Morta e enterrada após levar o tiro que, a gente já sabe, vai tirá-la de cena no capítulo 193 e instalar a dúvida quem matou Odete Roitman?, a péssima senhora é esperada por notívagos saudosistas que fizeram da novela de 1988 fenômeno de audiência da TV paga é o programa mais visto no horário, 0h45, e ainda movimenta as redes sociais, que repercutem as cenas madrugada adentro.
Na frente da TV também está o autor Gilberto Braga, que escreveu a trama com Aguinaldo Silva e Leonor Bassères. Vi os primeiros capítulos, a sensação é boa. O sucesso vem do fato de a novela ser boa, a história prende e os personagens são muito fortes, analisa ele, em entrevista à reportagem, afastando qualquer comparação com as tramas atuais e as ideias de falência do gênero.
Braga não precisa de falsa modéstia, porque é notória a importância de Vale Tudo para a história da TV, não só pela qualidade do texto e das interpretações, mas também por ser um espelho bastante realista dos primeiros anos da abertura política, quando a identidade do País era questionada. Um ano antes da que seria a volta do voto direto para presidente, 1988 foi o momento perfeito para a novela perguntar vale a pena ser honesto no Brasil?, dúvida ilustrada pela história de Raquel (Regina Duarte), mulher recém-separada e batalhadora que leva um golpe da filha ambiciosa, Maria de Fátima (Glória Pires). Não foi a primeira novela a usar temas atuais lembremos de Roque Santeiro (1985) , mas a que fez isso de maneira mais contundente, num primeiro plano.
Vale Tudo é o tipo de programa que transporta o telespectador no tempo, com pensamentos como onde eu estava na época em que os moços e as moças dançavam música lenta?. Braga não escapa da situação, e conta que teve algumas surpresas ao rever a novela. Não lembrava, por exemplo, que a Regina Duarte estivesse tão brilhante. Nos dez primeiros capítulos só dá ela, fantástica.
Imerso em inflação alta e às voltas com a promulgação de nova Constituição, o Brasil foi avacalhado pelas frases cortantes de Odete e atitudes de personagens de caráter duvidoso, como Marco Aurélio (Reginaldo Farias). Talvez nenhum recado tenha sido passado de maneira tão direta pela teledramaturgia até então. Quanto menos eu ouvir falar português, melhor, diz ela ao finalizar o tal telefonema que anunciou sua volta de Paris.
Mas embora hoje o País esteja no grand monde (para usar uma expressão da época), Braga não parece tão otimista. Não acho que (o País) tenha mudado tanto assim, e gostaria que tivesse, compara o autor, que acredita que Vale Tudo esteja atraindo tanto os que viram a novela no original quanto telespectadores de primeira viagem. Felizmente as pessoas já não aceitam a impunidade como aceitavam em 88, inclusive acho que a novela ajudou para que isso acontecesse.


