Representante do México defende as culturas regionais no Filo
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terça-feira, 21 de maio de 2002
Francelino FrançaReportagem Local 
Os efeitos da globalização nas artes e culturas regionais têm sido devastadores em muitos países da América Latina. O coordenador geral do Conselho Cidadão para a Cultura e as Artes de Morelo (México) e representante da Rede Internacional pela Diversidade Cultural Rafael Segovia participa do fórum O Lugar Público da Cultura, no Festival Internacional de Londrina (Filo). O mexicano Rafael Segovia atua como produtor cultural, além de ser escritor, diretor de teatro, roteirista e tradutor.
Em entrevista à Folha2, Segovia alerta que a América Latina passa por um momento complicado no setor econômico. Entramos numa fase de neocolonialismo, avisa. Com a efetivação da Alca (Área Livre de Comércio das Américas) e com Plan Puebla Panamá (que atinge a área central da América Latina) o neocolonialismo deve se acirrar. Mas é possível identificar nos atuais acordos comerciais os reflexos negativos nas artes e culturas, segundo observa o produtor cultural.
Esses acordos estão provocando uma depreciação das culturas nacionais, regionais e das etnias. Há mudanças no modo de vida, porque o consumo vem sendo feito de outra maneira, explica. Segovia destaca que as indústrias culturais são afetadas diretamente. O imperialismo da cultura norte-americana é absorvido com mais intensidade pelos jovens.
Na Coréia, os exibidores de filmes precisam respeitar a cota de 44% de filmes coreanos nas telas dos cinemas. Num recente acordo comercial com os Estados Unidos, os norte-americanos querem forçar a Coréia a baixar essa cota para 20%. É preciso encontrar mecanismos para opor-se a essa forma de atuação, afirma.
Os tratados comerciais estão obrigando os países a um intercâmbio de informações sobre os direitos de propriedade intelectual. Mas nos Estados Unidos, os direitos de propriedade intelectual pertencem às empresas, que estão patenteando, por exemplo, conhecimentos de comunidades indígenas. Em decorrência disso, essas comunidades perdem o direito à propriedade intelectual da sua própria cultura.
No México, a cultura de consumo é 90% norte-americana. O american way of life se disseminou de tal forma que o México está em vias de se tornar um outro Porto Rico. Nada pode competir com a presença publicitária da indústria norte-americana, presente no cinema, programas de tevê e na indústria de discos, avalia. Com a instalação de indústrias próximo a comunidades indígenas mexicanas, Segovia prevê que em uma ou duas gerações, essas comunidades percam completamente a identidade.
A Rede Internacional pela Diversidade Cultural, nesse contexto de neocolonislimo, tem o trabalho de promover as atividades culturais e os intercâmbios entre os países, além de frear o processo de sufocar ou dizimar processos culturais. O primeiro acordo internacional ou protocolo sobre o as artes e as culturas no contexto da globalização será firmado na Cidade do Cabo (África do Sul) no mês de outubro. Cerca de 52 países integrantes da Rede devem participar. Logo a seguir, na mesma cidade, 43 ministros da cultura se reúnem para discutir o assunto. Segundo Segovia, o encontro com os ministros tem maior peso à medida em que eles podem propor aos presidentes e primeiros-ministros de seus respectivos países políticas protecionistas culturais.


