Repórteres aventureiros
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 15 de setembro de 1998
Nelson Sato 
Um já sofreu ameaças de morte depois de denunciar os assassinatos em série cometidos pela polícia militar paulistana. Outro foi correspondente na guerra do Vietnã e voltou de lá com uma perna amputada. E ainda outro sofreu perseguição aérea enquanto fazia uma reportagem sobre contrabando no Paraguai.
Os três, todos renomados jornalistas brasileiros, estão entre os 11 craques escalados para contar um pouco sobre suas aventuras no livro Repórteres, recém-lançado pela editora Senac. O livro é repleto de histórias de bastidores, informações não publicadas, fatos laterais que por um motivo ou outro não puderam entrar na edição do jornal ou da revista. O time reúne Audálio Dantas (organizador do volume), Caco Barcellos, Carlos Wagner, Domingos Meirelles, Joel Silveira, José Hamilton Ribeiro, Lúcio Flávio Pinto, Luiz Fernando Mercadante, Marcos Faerman, Mauro Santayana e Ricardo Kotscho.
Audálio Dantas lembra, por exemplo, o mico que pagou ao realizar uma reportagem sobre a guerra entre Honduras e El Salvador ocorrida em 1969. Certo de que poderia festejar um furo internacional, já que ele e o fotógrafo Oswaldo Maricato eram os únicos jornalistas brasileiros que tinham acompanhado a guerra do começo ao fim, fez o despacho e foi dormir. A matéria, porém, não chegou à Redação da revista em que trabalhava.áá
- Foi parar no telex de uma fábrica em Santo André, no ABC paulista, desviada por um mais do que justificável cochilo do operador do telex hondurenho. Coube-me uma parcela de culpa na história que terminou com a reportagem aproveitada pela metade, requentada, na edição seguinte: deixara de conferir o número discado pela homem do telex.
Entre lembranças desastradas como essa, o livro reúne também histórias engraçadas. O laureado Carlos Wagner, premiado com 32 troféus - entre os quais cinco Esso - lembra uma reportagem que fez sobre as previsões do tempo, assunto que estava em pauta no final dos anos 80. Sabendo que os metereologistas operavam equipamentos sofisticados para informar se iria chover ou fazer sol no dia seguinte, o repórter levantou a seguinte questão: E quando não existia essa parafernália toda, como as pessoas sabiam o que iria acontecer com o tempo?.
Para obter a resposta, ele saiu a campo para colher informações com antigos pescadores, peões de fazenda, donas de casa, etc. Depois de percorrer o Rio Grande do Sul durante uma semana, notou que faltava o depoimento de um índio, sem o qual sua matéria soaria incompleta.
Rodou nove reservas indígenas do Estado até encontrar o que julgou ser um personagem perfeito para a matéria: um índio de 90 anos que se protegia do frio com seu grupo, ao lado de uma fogueira e sob um telhado.
- Sentei perto dele, tomamos um chimarrão e falamos algumas bobagens. Aplainado o terreno, expliquei o que fazia ali. E perguntei ao velho índio: Como é que o senhor sabe quando o tempo vai mudar?. Ele me olhou, sorveu um gole do chimarrão, limpou a garganta e respondeu: Pela Rádio Gaúcha. A conversa se encerrou com ele mostrando, orgulhoso, um velho rádio de pilha.
Tão desconcertante quanto essa resposta, mas carregada de tinturas dramáticas, foi a experiência de perseguição aérea sofrida pelo repórter Domingos Meirelles - ao lado do fotógrafo Geraldo Guimarães - enquanto faziam uma reportagem sobre atividades ilegais no aeroporto de Hernandárias, no Paraguai.
A localização privilegiada desse campo de pouso, a cerca de 40 quilômetros da fronteira brasileira e em uma região quase deserta, acabava lhe conferindo também importante papel no tráfico de armas e de drogas em todo o continente. O aeroporto era, na verdade, o resultado de um perverso concubinato entre o governo e o crime organizado.
O objetivo da incursão aérea era documentar a recuperação de um avião brasileiro que fora roubado no interior do Paraná, em 1969. A perseguição, no entanto, foi apenas o episódio mais cinematográfico de uma longa reportagem que só chegou ao fim no final de 97 e através da qual Meirelles pode servir como testemunha-chave durante um processo judicial movido contra o chefe de quadrilha e ex-presidente do Paraguai André Rodriguez e seu fiel escudeiro Carlos Barreto Sarubbi.
- Para tentar colocar essa dupla de criminosos na cadeira, a Ciudad del Leste vira-se obrigada a convocar um jornalista estrangeiro. Eles precisavam que alguém os ajudasse a exumar crimes mumificados havia 25 anos.
Também vítima dos perigos que rondam a profissão, o repórter José Hamilton Ribeiro perdeu uma perna na explosão de uma mina enquanto fazia a cobertura da Guerra do Vietnã. Seu depoimento no livro, entretanto, trata de desmitificar a imagem de herói.
- Às vezes me dizem que fui corajoso por ter ido ser correspondente de guerra. Isso é relativo, cada situação no jornalismo tem seu índice de perigo - e de fatalidade. Quase na mesma época em que fui para o Vietnã, um colega de Realidade, Geraldo Mori, fazendo uma reportagem de teatro, caiu de um praticável no palco, onde documentava um ensaio, fraturou a cabeça e acabou morrendo por causa disso. Fazer reportagem de teatro é assim mais perigoso do que cobrir uma guerra?
Audálio Dantas lembra que João Antonio, repórter e escritor morto em 1996, já falava nessa espécie de gente que arrisca a pele por uma boa história. Falava de seus colegas, ao mesmo tempo em que juntava munição para a antiga discussão sobre o que é a chamada grande reportagem e os pontos em que ela se encontra com a literatura. A questão, como se sabe, é estimulante e se faz presente neste livro.
O inglês Truman Capote, com seu sempre citado romance-reportagem A Sangue Frio, continua sendo a referência básica no assunto. Sua obra marcou gerações ao incorporar a estrutura, as ferramentas e as técnicas de ficção num texto que partia de fatos reais rigorosamente reconstituídos. Capote acreditava estar lançando as bases daquilo que anos depois Tom Wolfe batizaria nos Estados Unidos de new jornalism. O que ficou conhecido como Novo Jornalismo, entretanto, é avaliado por Marcos Faerman como não sendo tão novo assim.
- A reportagem literária já existia, tanto em autores como Daniel Defoe, no século XVII, como um John Reed ou no quase desconhecido (no Brasil) James Agee, ou nos inúmeros livros de reportagem do argentino Rodolfo Walsh. No mesmo sentido eu situaria a obra jornalística de autores brasileiros como Joel Silveira ou Ruben Braga.
Essa fronteira ainda não muito bem demarcada que separa o jornalismo da literatura, é tocada muitas vezes em alguns dos textos reunidos nesta coletânea, cujo desfrute está à disposição agora dos leitores.
áá
Livro: Repórteres. Editora Senac. Tel. (011) 884-8122. Fax: (011) 887-2136.


