Leandro Calixto
TV Press
O repórter Marcelo Canellas é o primeiro jornalista brasileiro a refazer na íntegra o caminho secreto da fuga da Sagrada Família, numa reportagem que vai ao ar no ‘‘Globo Repórter’’ no dia 24 de dezembro, véspera de Natal. Para escapar dos soldados do governador romano Herodes, José, Maria e Jesus atravessaram o deserto da Palestina em direção ao Egito. A equipe da Globo mostra os lugares por onde eles teriam passado, relembra os milagres que também teriam acontecido no caminho, como, por exemplo, a pedra que ficou marcada com o pé de Menino Jesus. ‘‘Por incrível que pareça, essa história é pouco conhecida num país tão religioso como nosso’’, acredita Canellas.
A reportagem estava prevista para ir ao ar no último dia 17. Como Roberto Carlos solicitou o cancelamento do especial em virtude do agravamento do estado de saúde da esposa, Maria Rita, que faleceu no último domingo, a Globo resolveu exibir a reportagem na véspera do Natal. Pela primeira vez, depois de 26 anos, o especial do cantor não vai ser exibido pela emissora no Natal. Marcelo Canellas reconhece que seu programa vai ser mais visado por isso, mas acredita que o público irá se emocionar com a reportagem. ‘‘Fizemos um trabalho que vai contribuir para a cultura de nosso país’’, explica. A fé do jornalista até aumentou depois da peregrinação pelo Egito. ‘‘Depois desta matéria fiquei mais embasado’’, diz o jornalista gaúcho, de 34 anos.
Juntamente com outros cinco profissionais da Globo, Canellas passou 25 dias durante o mês de setembro no Egito, onde percorreu mais de 15 cidades. A matéria está em fase final de edição, mas deve ter cinco blocos de dez minutos cada. O jornalista disse que, para fazer a reportagem, teve de conseguir a autorização do governo egípcio. ‘‘Em cada lugar que visitávamos, um grupo de 20 soldados nos escoltava’’, recorda. A medida visava dar segurança à equipe, já que existe grupos de terroristas islâmicos que perseguem os católicos. Apesar de uma certa inibição com a tropa por perto, Canellas conta que o trabalho não ficou comprometido. Pelo contrário. O repórter da Globo sentiu uma receptividade calorosa do povo egípcio. ‘‘Ao mesmo tempo que eles são cordiais e generosos, têm uma disciplina religiosa incrível. Todos rezam rigorosamente cinco vezes ao dia’’, relata Canellas. Ele ficou mais impressionado com as sexta-feiras, quando praticamente o país pára para rezar.
Antes de embarcar para o Continente Africano, Marcelo Canellas procurou buscar elementos e detalhes para fazer a reportagem. Embora seja de família católica e tenha tios padres, ele trocou idéias sobre a fuga da Família Sagrada com teólogos cariocas, leu muito sobre o tema. Canellas também foi aos arquivos da própria emissora para rever matérias como da jornalista Glória Maria, que inclusive, já percorreu parte do caminho para uma reportagem especial no ‘‘Fantástico’’. ‘‘Nossa reportagem foi mais detalhada’’, ressalva o jornalista.
A partir do próximo ano, Canellas vai ser remanejado para Brasília. Nos últimos dois anos, ele ficou baseado no Rio de Janeiro fazendo reportagens especiais para o ‘‘Jornal Nacional’’ ou ‘‘Globo Repórter’’. O jornalista antecipa que, na capital federal, deve fazer reportagens mais de comportamento. ‘‘Mas, quando for preciso, também vou cobrir o Congresso Nacional e a política de Brasília’’, avisa Canellas, que já durante quatro anos, cobriu o centro nervoso da política do país.
Mas Marcelo Canellas acabou se destacando na emissora com reportagens como a seca do Nordeste ou a invasão dos sem-terra no Eldorado dos Carajás, em Goiás. Ele também fez uma reportagem sobre a exploração do trabalho de menores no Sul do Pará que acabou lhe rendendo o Prêmio de Jornalismo Ayrton Senna. Antes de ganhar projeção nacional, porém, ele começou a carreira em sua cidade natal, na afiliada da RBS em Santa Maria, interior do Rio Grande do Sul, em 88. Hoje, diz que não gosta de fazer planos profissionais. Mas avisa que não pretende sair da reportagem. ‘‘Ser repórter é a matéria-prima do jornalismo. É o que me dá mais prazer’’, avisa.

mockup